Bate-papo entre os cineastas Calebe Lopes e Lula Magalhães



Lula Magalhães nos bastidores da gravação do curta-metragem “O Pequeno Baú”.


CL: Inicialmente, gostaria de te pedir que se apresentasse pro pessoal que ainda não te conhece.
LM: Meu nome é Luiz Eduardo Magalhães, mais conhecido como Lula Magalhães. Sou roteirista, realizador e fotógrafo nascido no Recife há 33 primaveras de vida. Além da carreira artística, exerço à docência universitária na área de Administração (minha formação). Atualmente não estou lecionando e só me dedicando aos trabalhos cinematográficos.

CL: Você começa a fazer cinema já com um filme, digamos assim, profissional. Com uma equipe técnica consolidada e um bom orçamento, ainda que seja um filme independente. Geralmente, quando vemos os primeiros filmes de cineastas que se dedicam ao terror, somos expostos a produções toscas, amadoras, cercadas de certo experimentalismo e pela vontade de tentar. O que te levou a fazer seu primeiro filme arriscando tanto?
LM: No fim das contas não foi um risco só meu. Foi um risco de toda uma equipe técnica e elenco que apostaram na ideia. Foi bem difícil rodar o “Mandala Night Club” sem ter nada no currículo. Isto foi em meados de 2013. Antes do “Mandala Night Club” houveram tentativas de fazer trabalhos, até uma websérie, mas todas fracassaram. “Mandala Night Club” então foi o primeiro trabalho em que o círculo se fechou. O filme foi finalizado e lançado em 2014. Depois disto veio “Invasor” (as gravações foram feitas 1 mês depois das gravações do ‘Mandala Night Club’) que rodei praticamente com a mesma equipe técnica do “Mandala Night Club”, havia uma confiança que foi estabelecida e uma certeza que seriam trabalhos que iriam repercutir e circular bastante. Com muito esforço e um pouco de sorte, foi o que ocorreu. Ao finalizar as filmagens de “Invasor” não tinha nenhum filme pronto ainda. Corri todo o ano de 2014 e um pedaço de 2015 para que os dois filmes ficassem prontos. Foi uma grande aposta, diria que mais de confiança e colaboração de uma excelente equipe envolvida que de fato algo financeiro. Para a proposta dos dois filmes confesso que gastei pouco. O preciosismo e a qualidade foram garantidos pela equipe.

CL: De onde surge a preferência pelo horror? Seria vocação ou fase? Pensa que esse é o seu gênero ou quer ainda desbravar por outras temáticas?
LM: Me apaixonei pelo cinema quando vi um filme que era um terror e ao mesmo tempo um lindo e inusitado romance “Drácula de Bram Stoker” dirigido por Coppola. Sempre tive uma grande paixão pelo cinema de terror, mas sempre adorei filmes franceses, italianos, alguns brasileiros e filmes orientais (não só terror). Quando falo do gênero que trabalho nas minhas obras, acabo caindo no terror, um terror que pouco tem a ver com o sobrenatural e sim com recortes de uma realidade cruel que nos rodeia causada não por fantasmas, demônios ou monstros, mas pelo próprio ser humano. “Mandala Night Club” é um terror baseado no submundo da noite recifense habitado por pessoas perigosas e por outras que precisam lidar com estes perigos torcendo para não serem vítimas deles. É um verdadeiro terror da vida real. “Invasor”, mesmo com ares fantasiosos, também atola o pé numa realidade que ronda a maldade humana. Se existisse um tema chamado maldade humana, este seria o que sempre trabalho. Como me preocupo em construir histórias que abordam essa maldade da forma mais perniciosa, cruel e bizarra, acabamos caindo no terror. Mas tenho projetos futuros no gênero policial, drama, etc. Acredito que o público não vai me ver fazendo uma comédia (risos). Entretanto quero passear por quase todos os gêneros.

CL: Uma coisa que sempre me impressiona quando volto aos teus filmes é a crueza com que trata as coisas. Todos eles têm um ar sujo quase que onírico, parecem fazer parte de um universo à parte, e me remetem muito à atmosfera de certos filmes de Claudio Assis e Gaspar Noé. Como que se dá esse processo de chegar à essa atmosfera, por que ela te atrai tanto?
LM: Gosto de olhar para onde ninguém gosta de olhar. Gosto de tocar na ferida que ninguém gostaria que fosse tocada. Se há alguma coisa em comum com o cinema de Assis ou de Noé acredito que seja essa vontade de falar sobre assuntos inconvenientes, mas que existem, não são fantasiosos ou criados ao acaso. Temos diversos tipos de filmes com as mais variadas intenções: agradar, ensinar, divertir, etc. Meu cinema vem de um instinto inexplicável em querer incomodar e chocar. Ficaria triste ao final de uma sessão de um trabalho meu em que alguém não estivesse incomodado ou pensativo com o meu trabalho. Não sei mesmo de onde vem esta atração.  Precisaria fazer uma extensa terapia para descobrir. Mas há um lado bom em tudo isto: do choque e do incômodo podem surgir a reflexão. Pessoas que saem de uma sessão com um incômodo que pode gerar uma reflexão, para mim, valem muito mais que aquelas que entraram na sala de cinema apenas para se divertirem. Cinema não é só diversão.

CL: Já que citei outros cineastas na pergunta anterior, me diz quais são as tuas principais referências, tanto cinematográficas como de outras artes. Quem influencia o teu cinema?

LM: É uma turbulência de fragmentos vindos de diversas artes dos mais diferentes gêneros e das mais variadas formas. Numa tentativa de racionalizar isto, eu diria que no cinema hoje os filmes do Takashi Miike são fantásticos. Ele é um cara que já fez muitas obras nos mais variados gêneros, mas sem perder a pegada da linguagem única dele. Acho isto genial. David Lynch, Park Chan-wook, David Fincher, David Cronenberg e Quentin Tarantino são boas referências. Do cinema francês gosto do Claude Chabrol que tem obras com gratas surpresas trágicas. Do cinema europeu citaria o grande Marco Ferreri. Lars Von Trier, Roger Avary, Carl Dreyer, Fritz Lang, etc. Na pintura eu citaria dois nomes que chamam e muito minha atenção: Hieronymus Bosch (pela loucura, genialidade e audácia na época sombria em que viveu) e Caravaggio (que tinha um certo temor da morte e por isto retratava tão bem este último estágio humano em várias obras). Na literatura não poderia deixar de citar Clive Barker, Chuck Palahniuk e Will Self. Mas não posso ser injusto com os clássicos: Victor Hugo, Flaubert, Gógol, Balzac, Dumas, Dostoievski, etc. De uma forma muito estranha e genial há uma dose também de terror e tragédia que incomoda e faz refletir nestes últimos citados. São gênios.

 

Calebe Lopes nos bastidores de "Um Dia É da Vida, O Outro da Morte"




CL: Sabemos que gêneros nada mais são que um ajuntamento de códigos que se repetem, uma catalogação de chaves de trabalho. Seus filmes são filmes de horror e suspense psicológico, no entanto, não temos sustos neles. É um tipo de filme que nos choca pelo absurdo, pelo gore, pela violência, pela crueza. Como é esse processo, você pensa primeiro no gênero ou apenas vem a ideia e ainda não sabe o que ela se tornará?
LM: É interessante isto. Como bom cineasta de terror talvez eu seja incompetente em dar susto (risos). Talvez o susto e a surpresa não venham porque o absurdo, gore, violência e crueza não sejam coisas tão distantes assim de nossa natureza. Talvez soem como algo familiar e o incômodo se dê mais pelo fato de não aceitar que instintivamente somos assim. Não crio histórias pensando no gênero. Apenas crio como uma válvula de escape ou como uma comida indigesta que precisa ser colocada pra fora. Ela vem como ideia que precisa ser transformada em história para posteriormente ser materializada num filme. São três estágios bem diferentes e que podem passar por diversas mudanças até o estágio final que é o filme pronto.

CL: A respeito de códigos genéticos, teu filme mais recente, Tudo Que Amo Morre, é um filme de difícil catalogação. Há um quê de fantastique em algum lugar ali, um certo ar distópico, mas ao mesmo tempo é um drama com certo ar de thriller e até erotismo, se diferenciando até visualmente de suas obras anteriores. Seriam indícios de uma nova fase em sua arte?
LM: Pegando carona na resposta anterior é difícil responder esta pergunta. As ideias surgem e são postas pra fora. Particularmente não considero “Tudo Que Amo Morre” um terror. Mas alguém me disse que apesar da história se desviar disto, outras características como a luz sombria, a música estranha e desconsertada estão ali para provar que sim, o filme está envolvido numa atmosfera de terror. Mas confesso que é inconsciente. O erotismo é algo sempre frequente. Todos os meus filmes têm um forte teor erótico.

CL: Além do trabalho com o cinema independente, você também tem uma carreira como fotógrafo. De que modo o cinema influencia em sua fotografia e vice-versa? Tem vontade de adentrar por outras artes também?
LM: Tenho um projeto fotográfico chamado Registros Cristalizados onde fiz uma tentativa de juntar o terror com sensualidade. Diria que alguns trabalhos ficaram interessantes. Tenho vontade de escrever uma HQ.


CL: Sua vida como realizador de filmes com baixíssimo orçamento é dura, os filmes que precisam de mais grana demoram mais pra serem feitos, mas isso também te leva a treinar a fazer mais com menos, como é o caso de Indutor, feito sem dinheiro algum. Pretende realizar cinema independente pra sempre? Alguma outra maneira de financiamento lhe atrai? Está em seus planos concorrer a editais, uma vez que Pernambuco tem chamado a atenção nacional nos últimos anos como um importante polo cinematográfico, privilegiado por investimentos do governo?
LM: O que é um polo cinematográfico? Para mim Hollywood é um polo cinematográfico. Bollywood é um polo cinematográfico. Paulínia aqui no Brasil é ou foi um polo cinematográfico. Pernambuco não é um polo cinematográfico. Pernambuco é um estado que tem boas leis de incentivo (comparado a estados vizinhos como Alagoas e Paraíba, por exemplo) e alguns cineastas talentosos que conseguiram imprimir suas marcas no cinema nacional. A ideia de polo cinematográfico casa muito com indústria e indústria cinematográfica, na minha opinião, é um sonho bem distante do Brasil. Pretendo sim realizar cinema independente para sempre, isto não quer dizer que vou trabalhar apenas e exclusivamente com este formato para sempre. Tenho projetos onde conscientemente sei que sem uma lei de incentivo ou uma co-produção não vou conseguir rodar. Sei que alguns projetos não poderão serem feitos de forma independente com grana própria. No entanto, mesmo que um dia ganhe um edital ou até mesmo vá trabalhar num lugar onde de fato exista uma indústria de cinema com um investimento e retorno alto de grana em produções, quero ainda poder ter a liberdade de pegar a câmera e rodar algo sem grana alguma para lançar de forma independente.
 
CL: Para finalizar: quais dicas você dá pra quem deseja desbravar pelo cinema independente? O que é essencial que um cineasta faça ou aprenda?
LM: É essencial que um cineasta independente e de guerrilha saiba fazer tudo. Isto mesmo: tudo. Desde dirigir o filme até cuidar da elétrica dos fios e das luzes, até limpar o set e organizar a comida da equipe. Nem sempre você terá gente disposta ao seu lado para fazer as coisas, então se quer levantar a bandeira do cinema independente, procure por colaboração, mas também aprenda a fazer as coisas sozinho. Aprenda a ser multi-tarefa num filme. Aprenda a ser um canivete suíço. Não para ser especialista em tudo. Ninguém é especialista em tudo. Mas para entender como tudo funciona. Para saber fazer e não ficar na mão, caso você não tenha quem faça naquela determinada produção. Dá trabalho ter noção de tudo, mas imagine que numa oportunidade de dirigir uma grande produção, você saberá o que cada membro estar fazendo sem se sentir um cego perdido num tiroteio como vejo muitos cineastas por aí. Pense no cinema de guerrilha como um carro antigo e difícil de dirigir. Se você aprende bem nele, você dirige qualquer automóvel possante e moderno sem grandes dificuldades.

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