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A MORDIDA E A MEMÓRIA: O QUE SINNERS DIZ SOBRE RAÇA, PODER E ANCESTRALIDADE

Por: Saul Mendez Filho e Queops Negronski

Por Saul Mendez Filho¹ e Queops Negronski²


Em “Pecadores / Sinners” (2025), novo filme de Ryan Coogler, os vampiros não interessam apenas como monstros, mas como raça. Um povo imortal, que vive entre nós há séculos, moldando o mundo em silêncio. Eles não atacam pela força bruta, mas pelo convencimento. Convidam, seduzem, oferecem uma eternidade sem dor, sem envelhecimento, sem raízes. O problema? Essa eternidade exige um preço alto: esquecer quem você é. No filme, a mordida vampírica é mais do que um gesto de terror ou desejo, é uma violência silenciosa que promete vida eterna ao custo de toda memória.


Ambientado no Delta do Mississippi em 1932, os irmãos gêmeos Smoke e Stack, após anos a serviço da máfia de Chicago, retornam ao sul com dinheiro roubado e um sonho: abrir um juke joint — um bar de música ao vivo — para a comunidade negra de sua cidade natal. Ao lado do primo mais jovem, o guitarrista Sammie, e de outros colaboradores, constroem um espaço de celebração, resistência e blues. O bar representa um gesto de autonomia cultural num território pautado pela segregação e pela KKK.


 


É neste espaço — carregado de espírito, suor e memória — que a trama sobrenatural se infiltra. O vampiro Remmick, irlandês, ancestral, atravessa o sul como uma praga, ameaçando fazer do bar dos irmãos sua nova corte noturna. E é a força da música de Sammie, capaz de evocar passado, presente e futuro, que o atrai. Mas Remmick não oferece apenas imortalidade, e sim um tipo de eternidade desvinculada da cor —  que unifica, que iguala, que elimina a dor da diferença —, a oferta de um corpo poderoso, liberto da opressão racial, mas também da história. A mordida, nesse universo, é uma ruptura ontológica: ao ser mordido, o indivíduo perde seus rituais e sua ancestralidade. Para Zora Neale Hurston, que estudou as religiões afro-americanas e caribenhas, como o vodu haitiano e o hoodoo sulista, o sangue é mais do que fluido vital: é veículo de memória e canal de comunicação com os ancestrais. Assim, quando os vampiros sugam o sangue, eles não estão apenas prolongando sua existência — eles interrompem linhagens.



Sinners se insere numa linhagem de filmes que pensaram o vampirismo à luz da negritude. Em Blacula (1972), Mamuwalde é amaldiçoado por Drácula após recusar o tráfico de escravos. A mordida é um gesto colonial — uma forma de punir o orgulho africano com a eternidade do exílio. Em Ganja & Hess (1973), o vampirismo nasce de um artefato ritual africano, e o sangue funciona não como vício, mas como elo sagrado. Mais recente, em Vampires vs. The Bronx (2020), vampiros brancos tentam comprar e “limpar” um bairro negro e latino de Nova York. A gentrificação é uma forma de vampirismo — apagar a cultura para instalar o consumo. Essas obras sugerem que a condição vampírica, longe de neutra, está racializada desde sua origem.


O dilema que atravessa Sinners é o da “dupla consciência” apresentado por William E. Du Bois no início do século XX. DuBois descreveu a experiência negra nos Estados Unidos como uma divisão permanente entre ser americano e negro ao mesmo tempo, com um dos lados sempre negado. Como ser negro em uma sociedade que te nega, sem abrir mão de si?  Ao se tornar vampiro, ganha-se poder e visibilidade — mas perde-se o nome, a voz, o gesto. Integra-se a um sistema que absorve como força, mas não como história. Na tradição filosófica de Michel Foucault, o conceito de biopoder é descrito como o poder de gerir a vida e a morte — de dizer quem merece viver, quem pode morrer, quem vale a pena manter. Em Sinners, os vampiros exercem exatamente esse poder. Eles decidem quem se torna imortal, quem é esquecido e quem é incorporado. São administradores da eternidade. E o preço da vida eterna é a homogeneização. Coogler parece perguntar: que tipo de eternidade vale a pena se não inclui nossos mortos? E que tipo de vida tem valia quando se exige o abandono da origem, da família, da terra, até mesmo da dor que nos marca e nos liga aos entes queridos?...


 


No cerne do filme de Coogler reside, portanto, uma dimensão simbólica poderosa: a ideia de que, para povos marcados pelo apagamento histórico, lembrar é viver. Ser mortal é preservar. E nesse sentido, os vampiros ressurgem como representação colonizadora: prometem libertação, oferecendo, na verdade, apagamento ancestral.


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¹ Pesquisador acadêmico (UESC), Tec. Audiovisual do IFBA campus Ilhéus, Comunicólogo (RTV), Msc. em Cultura e Turismo, membro da equipe organizadora do festival Cine Horror / Bahia 2016-2022.


² Fã e estudioso do cinema de horror, atualmente participa de júris e curadorias de festivais de cinema de gênero.

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| 1597 | 04/07/2025
Em "Pecadores / Sinners" (2025) a mordida vampírica é mais do que um gesto de terror ou desejo, é uma violência silenciosa que promete vida eterna ao custo de toda memória.
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