Em 15 de agosto deste ano, o filme A Mosca, dirigido por David Cronenberg, completa quarenta anos desde o seu lançamento. Em sua trajetória, essa obra não apenas se tornou um dos grandes clássicos do horror como levou o gênero a um dos seus principais prêmios, o Oscar de Melhor Maquiagem, em 1987. O filme é produto da adaptação de um filme atualmente pouco conhecido, A Mosca da Cabeça Branca, de 1958.
O filme de Cronenberg centra sua narrativa no cientista Seth Brundle, que inventa uma revolucionária máquina de teletransporte e decide testá-la em si mesmo. Durante o processo, uma mosca entra acidentalmente na cabine sem que ele perceba o erro, fundindo o DNA de Seth com o do inseto.
Seth, de início, sente um aumento extraordinário em sua força, agilidade e disposição física, mas seu corpo logo inicia um processo de mutação grotesco e doloroso, perdendo dentes, unhas e pedaços de pele de forma progressiva. Sua mente também se corrompe, tornando-o agressivo e guiado por apenas por instintos. Sua namorada, a jornalista Veronica Quaife, testemunha horrorizada esse processo de perda total de sua humanidade.
Cronenberg é mais conhecido pelo que se convencionou chamar de body horror, marcado por um conjunto de produções que mostram transformações físicas grotescas, mutações e perda de controle sobre o próprio corpo, construindo o medo a partir da violação da anatomia humana por meio de doenças, parasitas ou mutilações. O body horror ganhou novo fôlego em anos recentes a partir do sucesso de A Substância, protagonizado por Demi Moore e inclusive indicado ao Oscar, do excelente Crimes of the Future, do próprio Cronenberg, e das obras provocativas de Julia Ducournau, como Raw e Titane.
No caso de Cronenberg, o body horror remonta, em maior ou menor grau, ao seu próprio início de carreira como diretor, por meio de filmes como um primeiro Crimes of the Future (1970), Shivers (1975) e Rabid (1977). Esses filmes, além de obras como Scanners e Videodrome, do início da década de 1980, de certa forma pavimentam o caminho que levaria Cronenberg a realizar A Mosca, do qual se pode destacar pelo menos três aspectos principais.
Em primeiro lugar, no filme Cronenberg, como o fez em obras anteriores, problematiza a ciência, sem cair num moralismo simplório e inocente. Por um lado, mostra uma certa arrogância por parte dos cientistas, que se colocam como pessoas que não cometem erros e que tem um direito quase divino de fazer algo que se pretenda revolucionário. Como o parasita em Shivers, em A Mosca essa arrogância leva Seth à perda do controle sobra a própria criação.
Por outro lado, existe a questão dos interesses privados que lucram com essa produção de conhecimento. Como em Rabid, a busca pelo lucro leva os envolvidos a menosprezar a ética básica ao lidar com a vida dos seres humanos. Dessa forma, em A Mosca, o que se quer é que Seth produza resultados vendáveis, não importando o caminho que assuma para chegar aos objetivos.
Um segundo aspecto relevante passa pela caracterização do processo decomposição do corpo de Seth. O central dessa questão – e por isso o merecido prêmio no Oscar – passou por um trabalho realizado com uma maestria. O uso de efeitos práticos mostra uma rara qualidade de A Mosca se comparado à maioria das produções de horror das últimas décadas.
O terceiro aspecto a se destacar é como, em meio a uma história tão assustadora e com passagens até mesmo grotescas, Cronenberg consegue contar uma belíssima história de amor. O relacionamento de Seth e Veronica, apesar das rusgas que marcam a relação desde o começo, é belo e sincero. Mais para o final do filme, o rosto de um Seth transformado em monstro suplicando para ser morto, depois de perceber que mais colocava em risco sua amada do que a protegia, é uma das cenas mais tocantes que se possa encontrar no cinema de horror.
Passados quarenta anos, trata-se de um clássico. Enquanto outros filmes da mesma época parecem empoeirados em estantes que ninguém procura, A Mosca consegue, por um lado, ainda assustar as pessoas com sua construção artística impecável e, por outro, nos fazer refletir sobre o conhecimento científico e suas consequências. Mostra ainda como o body horror, em uma de suas produções mais brilhantes, é assustadoramente atual em meio a cirurgias plásticas e todo o tipo de neuroses relacionadas à busca por corpos perfeitos.
A Mosca está disponível no Brasil em Blu-ray pela Classicline e no streaming pela DIsney+.