DOLLHOUSE | Japão | 2025
Direção: Shinobu Yaguchi
Roteiro: Shinobu Yaguchi
Elenco: Masami Nagasawa, Koji Seto, Aoi Ikemura, Tetsushi Tanaka, Totoka Honda, Hiroki Konno, Jun Fubuki, Ken Yasuda
Distribuição: Sato Company
Duração: 110 minutos
Sinopse: Yoshie e Tadahiko são casados e tinham uma filha de 5 anos, Mei, que faleceu. Devastada pela perda, Yoshie mergulha em um espiral de desespero. Certo dia, em um mercado de antiguidades, ela encontra uma boneca semelhante a Mei e decide comprá-la.
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No dia 6 de novembro, o público brasileiro reencontrará o cinema de horror japonês com Dollhouse, novo filme de Shinobu Yaguchi, vencedor do Grande Prêmio da 45ª edição do Fantasporto (2025). O anúncio de sua estreia marca não apenas a chegada de um novo exemplar do horror japonês às salas de cinema, mas também a inesperada virada de um diretor cuja filmografia sempre foi dedicada à leveza, ao humor e à musicalidade do cotidiano. Se Swing Girls e Dance With Me haviam coroado Yaguchi como um mestre da comédia otimista, Dollhouse se inscreve na contramão: uma obra de pinceladas sombrias, sobre perda, substituição e a relação de maternidade.
I. Do Riso ao Horror
O movimento de Yaguchi rumo ao J-horror é, antes de tudo, um gesto de risco artístico. Poucos cineastas japoneses contemporâneos possuem um domínio tão grande do ritmo cômico, e poucos ousariam abandonar esse conforto. Em Dollhouse, ele troca o timing da piada pelo silêncio do desconforto. O resultado é um filme que parece nascer de uma fricção entre duas linguagens: o humor inocente que Yaguchi conhece de cor, o fantástico no cotidiano (e o cotidiano no fantástico), alcançando um horror contido, por vezes leve, que sempre habitou as margens do drama japonês. É um encontro curioso — e às vezes instável — entre o otimismo que o consagrou e o fatalismo que agora o desafia.
II. O Luto e a Substituição
A trama parte de um acontecimento simples e devastador: uma mãe perde a filha em um acidente. Diante do trauma, o luto se transforma em um impulso de substituição. A mulher compra uma boneca em uma feira de antiguidades — uma peça delicada, vestida como uma criança. A boneca preenche o vazio, até o momento em que a família cresce novamente e uma nova filha nasce. Mas, nesse ciclo de reposições, o que realmente é substituído? A filha, a boneca, a mãe? Yaguchi constrói, com paciência quase entomológica, um retrato do afeto deformado, onde a necessidade de manter viva uma lembrança se converte em perturbação.
III. O Terror do Familiar
Durante a primeira metade, Dollhouse flerta com a estrutura tradicional dos filmes de brinquedos possuídos — há momentos que lembram Brinquedo Assassino ou até mesmo Dead Silence. O público oscila entre três possibilidades: seria a boneca a causa do terror, ou a criança que a manipula, ou a própria mãe, imersa na loucura do luto? Essa ambiguidade sustenta o suspense, mas também faz o filme parecer, por vezes, genérico. O roteiro se arrasta em dilemas conhecidos, até que uma mudança drástica ocorre — e Yaguchi finalmente mergulha nas águas do horror japonês de forma plena.
IV. O Espírito Dentro do Objeto
Na segunda metade, Dollhouse assume sua verdadeira natureza: o terror não vem da boneca em si, mas do que ela representa. A narrativa resgata elementos da cultura espiritual japonesa, especialmente a crença nos tsukumogami, objetos antigos que adquirem alma com o tempo, e o ritual do ningyō kuyō, cerimônias reais realizadas em templos para queimar ou enterrar bonecas usadas, muitas vezes fabricadas com cabelos e unhas humanas. Ao trazer esses elementos tradicionais para o enredo, Yaguchi não apenas insere o filme num diálogo com a história do horror no cinema japonês, como também estabelece uma ponte entre a fé e o trauma moderno — entre o espiritual e o psicológico.
V. Exorcizar o Luto
É quando o casal tenta “exorcizar” a boneca que Dollhouse encontra seu ápice. A jornada de purificação — guiada por um sacerdote e marcada pela tensão crescente — retoma a lógica de Ringu e de outros clássicos do J-horror: o mal precisa ser entendido antes de ser banido. Há um senso de missão, de “cumprir o pedido do espírito em terra”, que transforma o terror em drama. O ritual final é também um rito de passagem, um difícil abandono que parece purificar mais a mãe do que o objeto — uma metáfora clara para o processo de luto e de reconstrução identitária.
VI. O Horror e a Incerteza
Mesmo assim, o filme nunca se acomoda. O equilíbrio entre o drama e o horror é instável — e talvez seja essa a força de Dollhouse. Yaguchi parece não saber se deve filmar a dor ou o absurdo dela, e em muitos momentos essa indecisão resulta em algo quase grotesco, pois o riso e o cotidiano ainda insistem em viver dentro da tragédia. Há ecos de comédia nessa oscilação entre o bizarro e o patético, entre o que é sério e o que é apenas estranho demais para ser levado a sério, embora nunca se trate de algo tão escrachado quanto muitas obras de horror dos anos 90 realizaram. Essa tensão ocorre de forma natural e dá ao filme uma textura única, uma hesitação entre a sensibilidade cômica do diretor e a escuridão que ele tenta dominar.
VII. Herdeiro e Inovador
Como primeira incursão no horror, Dollhouse está longe da perfeição. Falta-lhe o refinamento visual de Pulse ou o pavor psicológico de Dark Water, mas sobra-lhe humanidade — e uma rara honestidade emocional. É um filme que observa o horror não como espetáculo, mas como consequência da vida. Yaguchi talvez ainda não saiba filmar o medo, mas sabe filmar as pessoas que o sentem. No fim, o diretor entrega um trabalho sólido, estranho e sincero: uma tentativa de reanimar o gênero com a mesma curiosidade que move suas comédias. Dollhouse não é apenas o retorno do J-horror ao circuito internacional — é o reencontro de Shinobu Yaguchi com o lado sombrio do riso que permeia nossas vidas.
Dollhouse estreia nos cinemas brasileiros no dia 06/11/2025.