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A CASA ASSOMBRADA: AMITYVILLE E JU-ON COMO ARQUÉTIPOS DO LAR PROFANADO

Por: Saul Mendez Filho

Desde tempos imemoriais, a casa representa um espaço simbólico de proteção e pertencimento. No imaginário coletivo, é no lar que o indivíduo encontra segurança contra os perigos do mundo exterior. Quando esse espaço se torna ameaçador, o medo ganha contornos profundos e existenciais. Em Amityville Horror (1979) e Ju-on: The Curse (2000), dois filmes emblemáticos do terror ocidental e oriental, respectivamente, a casa deixa de ser um refúgio e se transforma em fonte do horror. Ambos os filmes exploram esse colapso simbólico, fazendo do lar o epicentro de traumas sobrenaturais, e reafirmando a morada como cenário privilegiado do medo.



Amityville Horror (1979)


Essa inversão do lar como lugar seguro já se manifesta em outras formas do horror, especialmente nos filmes de home invasion, em que o inimigo é humano e externo, mas ainda assim profana a intimidade doméstica. Em Straw Dogs (1971), de Sam Peckinpah, o lar do protagonista é invadido por forças brutais que expõem sua fragilidade, enquanto no japonês Door (1988), uma dona de casa é atormentada por um estranho invasor, e o espaço doméstico se converte em armadilha. Nesses exemplos, o horror surge da violência tangível, social e psicológica, mas prepara o terreno para compreendermos como, no sobrenatural, a casa pode guardar horrores que emanam de seu próprio cerne.


Com o horror sobrenatural, o medo ganha dimensão metafísica. A casa passa a ser não apenas um espaço físico, mas um organismo vivo, corrompido por presenças invisíveis. Filmes como The Shining (1980), Poltergeist (1982) e The Haunting (1963) ilustram essa transição. Nessas obras, as casas possuem personalidade, memória e vontade próprias. Elas não apenas abrigam fantasmas — são, elas mesmas, o fantasma. A arquitetura, os corredores e os cômodos se tornam labirintos psíquicos e simbólicos, minando a estabilidade emocional dos moradores e instaurando o caos.



Em Amityville Horror, baseado em eventos supostamente reais ocorridos em Long Island, Nova York, o terror se manifesta após a família Lutz se mudar para uma casa marcada por assassinatos. A narrativa é carregada de iconografia cristã: crucifixos virados, padres atormentados, vozes demoníacas. A casa, aqui, é um portal para o inferno, e o mal é externo, satânico, associado à ideia cristã do pecado impregnando o espaço. A visão do lar como templo profanado remete a uma herança judaico-cristã na qual o mal precisa ser expurgado por forças da fé.


Por outro lado, em Ju-on: The Curse, o horror é silencioso, circular e entranhado na própria história da casa. Diferente da visão cristã de uma batalha entre bem e mal, o filme japonês herda do xintoísmo e do budismo uma concepção em que o espírito não expurgado permanece preso ao lugar da morte violenta. O mal não é uma entidade demoníaca exterior, mas uma energia contaminada, um onryō — espírito vingativo — que se espalha. Assim, a casa de Ju-on não precisa de rituais de exorcismo: ela é um nó de ressentimentos, traumas e repetições eternas.



Ju-on: The Curse (2000)


Jean Delumeau, em História do Medo no Ocidente, observa como o medo se associa historicamente a lugares considerados impuros ou contaminados. No Ocidente, o lar ameaçado é visto como uma transgressão moral, como se a corrupção do espaço refletisse a corrupção interna da família. Já no Oriente, especialmente no Japão, a noção de kegare (impureza espiritual) exige purificação ritual constante dos espaços. A diferença simbólica entre Amityville e Ju-on reside justamente nessa forma de lidar com a presença do mal: confronto versus aceitação do ciclo.


As casas desses filmes são metáforas complexas. Em Amityville, a presença do mal parece exigir um protagonista ativo, que enfrente, que fuja ou que combata. Já em Ju-on, não há possibilidade de salvação: o mal se espalha como vírus, afetando todos que entram na casa, independentemente de sua vontade. Isso implica uma visão menos antropocêntrica, em que os humanos não são protagonistas, mas vítimas de uma maldição impessoal e inescapável. Em ambos os filmes, no entanto, o espaço doméstico deixa de ser neutro: ele participa do terror.



É interessante notar como o medo da casa contaminada responde a medos sociais e culturais mais amplos. Amityville surge após os anos de crise das instituições familiares e da perda de fé na autoridade religiosa nos EUA. Já Ju-on reflete uma sociedade japonesa marcada pela alienação urbana, pelo isolamento emocional e pela ruptura dos laços tradicionais. A casa, então, não é só onde o terror acontece — ela é o reflexo de um mal coletivo.


Assim, ao analisarmos Amityville Horror e Ju-on: The Curse como dois lados de uma mesma moeda cultural, percebemos que ambos expressam o medo fundamental da ruína do lar, da subversão do que é íntimo e seguro. Seja sob a forma do demônio cristão ou do espírito rancoroso japonês, a casa torna-se um espelho obscuro da alma moderna, onde o passado retorna e o cotidiano é devorado por forças invisíveis. O horror, nesse caso, não vem de fora — ele já estava dentro de casa.

Matérias
https://www.cinehorror.com.br/materias/a-casa-assombrada-amityville-e-ju-on-como-arquetipos-do-lar-profanado?id=1505
| 1255 | 16/06/2025
Em Amityville Horror (1979) e Ju-on: The Curse (2000), dois filmes emblemáticos do terror ocidental e oriental, respectivamente, a casa deixa de ser um refúgio e se transforma em fonte do horror.
  
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