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DESVENDANDO O GORE – PARTE 2

Por: Saul Mendez Filho

Para ler a parte 1 dessa matéria, clique aqui


 


Comédia


Neste ponto, a fusão com a comédia atrelada à fácil distribuição proporcionada pelo VHS abrangeu o público para produções do gênero e tornou o splatter um entretenimento comum na cultura pop. O sucesso de Evil Dead (1981), dirigido por Sam Raimi, está em sua mistura de horror e humor de forma inovadora, criando uma estética única que influenciaria gerações futuras. Da mesma forma, O Massacre da Serra Elétrica 2 (1986), de Tobe Hooper, abraçou o exagero e a sátira, distanciando-se do tom sombrio do original e mergulhando no absurdo grotesco.



Na década de 90, o flerte com a comédia rendeu um dos pilares do gênero, o clássico Fome Animal (1992), de Peter Jackson, onde o sangue jorra em proporções épicas. Enquanto isso, O Massacre da Serra Elétrica: O Retorno (1994) - um filme maldito que hoje foi redescoberto – refletiu também sobre a própria indústria do entretenimento e suas obsessões.


Pop


Após o suposto esgotamento da fórmula no final dos anos 90, o gore ressurgiu com força total com a chegada do novo milênio, agora sob a alcunha de "torture porn". Após uma série de lançamentos maravilhosos do cinema extremo francês, de diretores como Claire Denis, Alexandre Bustillo, Pascal Laugier e Alexandre Aja, filmes americanos como O Albergue (2005), de Eli Roth, e Jogos Mortais (2004), de James Wan, exploraram em grande escala os limites da dor e da resistência humana levando multidões aos cinemas com um apelo pop que o subgênero não conseguia em muito tempo.



A franquia iniciada com A Centopeia Humana (2009), de Tom Six, é um exemplo de proeza nesse âmbito, conseguindo a proeza de criar um conceito para sempre referenciado na cultura popular. Obviamente que, com tal imersão na cultura, esses filmes foram alvos de crítica na mídia de massa, mas também foram elogiados por sua capacidade de provocar e questionar. 



Cult


A partir de 2010, o gore encontrou um caminho artsy, comedido, buscando seus referenciais estilísticos na sobriedade do cinema dos anos 70 e comumente utilizando-se da linguagem como ferramenta para explorar temas sociais ou psicológicos. Raw (2016), de Julia Ducournau, é um exemplo brilhante, onde o canibalismo serve como metáfora para o despertar sexual e a descoberta de si mesmo. Da mesma forma, Hereditário (2018), de Ari Aster, utiliza o horror visceral para abordar traumas familiares e a herança do sofrimento. Esses filmes nem de longe possuem as doses de sanguinolência e podridão dos filmes de outras eras, mas sabem dosar o elemento do gore a seu favor, medindo sua exposição para que ganhe força em momentos de impacto.



O body horror volta a ser amplamente retomado, não apenas em novos filmes de David Cronenberg como através de novos nomes do cenário. Em Titane (2021), novamente de Julia Ducournau (filme que venceu a Palma de Ouro em Cannes), se desafiam as convenções de gênero e identidade, utilizando o corpo humano como campo de batalha para transformações físicas e emocionais. The Substance (2024) além de vencer o Oscar de maquiagem ainda conseguiu competir pelo Oscar de Melhor Filme, um fato histórico para o subgênero. O filme de Coralie Fargeat utiliza o horror corporal para questionar os padrões de beleza femininos em Hollywood, tema que Starry Eyes (2014) de Kevin Kölsch abordou anos antes. Tais premiações comprovam que o subgênero mostra-se hoje mais aceito por toda uma geração de cinéfilos, pronto para manter-se vivo no cenário e explorar novas fronteiras.


Au Revoir


O gore, ao longo das décadas, provou ser mais do que simples violência gratuita. É uma lente através da qual podemos examinar nossos medos, desejos e a própria condição humana. E, como vimos, sua evolução é um reflexo das mudanças culturais e sociais que atravessamos. Que venha a próxima parte desta sangrenta e fascinante jornada.


Matérias
https://www.cinehorror.com.br/materias/desvendando-o-gore-parte-2?id=1478
| 704 | 02/06/2025
O gore, ao longo das décadas, provou ser mais do que simples violência gratuita.
  
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