Na noite de 26/10, domingo, último dia da X Mostra de Cinema Cine Horror, aconteceu a cerimônia de premiação, com o anúncio dos filmes nacionais premiados. Neste ano, o júri foi composto por Ed Persona, Nataly Pinho, Victoria Vasconcellos e Gabriel Iatarelli.
MENÇÕES HONROSAS

RHEUM demonstra domínio técnico singular ao hibridizar sand animation, stop motion e animação ao vivo—técnicas raramente exploradas no cinema brasileiro. A narrativa acompanha Remela através de paisagens oníricas povoadas por criaturas sobrenaturais que se formam e dissolvem diante do protagonista perdido, culminando em reviravolta salvadora. A trilha sonora sinistra e opressora constrói tensão crescente em perfeita simbiose com as metamorfoses visuais da areia, consolidando experimentação formal de notável refinamento estético.

Cereja do Bolo, de Laura Reis, destaca-se pela abordagem visceral da crueldade animal e do consumo no capitalismo tardio, inserindo-se no emergente subgênero do pastel/pink terror, caracterizado pela saturação cromática contrastante com violência explícita. O filme constrói alegoria mordaz ao nomear personagens com cortes bovinos, estabelecendo hierarquias sociais que culminam em canibalismo ritualístico onde nem figuras divinizadas escapam da voracidade carnívora, revelando crítica afiada às estruturas de exploração contemporâneas.
TERCEIRO LUGAR

O júri premiou O Motorista por reconhecer na obra de André Leão uma realização de notável densidade psicológica e capricho técnico. A capacidade do roteiro em construir perfis psicológicos complexos e o trabalho do elenco são grandes destaques do filme. O júri valoriza especialmente a construção da tensão paranoica, que manipula a percepção do espectador de forma sofisticada até convergir para um clímax moralmente ambíguo. A abordagem de questões como sexualidade reprimida e sanidade fragmentada tecidas nas entrelinhas, sem explicitações gratuitas, consolida esta obra como uma das mais instigantes da seleção. O diálogo respeitoso com Scorsese em Taxi Driver, sem perder autenticidade ao retratar um Brasil contemporâneo, demonstra maturidade artística digna de reconhecimento.
SEGUNDO LUGAR

O júri reconhece em Balada para Raposo Tenório uma obra que se destacou, entre as animações e produções live action, pela força de sua visão autoral e pela excelência técnica que a sustenta. Fundamentado em uma pesquisa historiográfica rigorosa, que dialoga com obras de Eli Brasiliense e Luís Palacin, o filme demonstra uma seriedade intelectual rara, elevando o cinema à condição de ferramenta de preservação e reflexão da memória histórica — abordagem que encontrou forte ressonância no júri.A decisão de Samuel Peregrino e do AnimatrizStudio de entrelaçar elementos do western com o terror psicológico e o sobrenatural, explorando a destruição colonial sem concessões à romantização, revela uma maturidade narrativa admirável. O júri destaca ainda a excelência técnica da animação 2D tradicional, inteiramente realizada à mão durante a pandemia: sua fluidez evoca o auge das grandes produções internacionais dos anos 1990 e 2000, enquanto as sequências de confronto, de execução excepcional, demonstram um domínio artesanal raro no cenário contemporâneo.A trilha sonora, ao alternar com precisão entre calmaria e tensão, integra-se organicamente ao design de som, completando uma obra de rigor histórico e excelência técnica — um marco que merece celebração no panorama da animação brasileira.
PRIMEIRO LUGAR

O júri do Cine Horror 2025 elegeu Ataques Psicotrônicos como vencedor da seleção do júri por reconhecer na obra de Calebe Lopes a completude e o refinamento que revelam o domínio preciso da linguagem cinematográfica. O júri valoriza especialmente a maneira com que o filme aborda a manipulação religiosa e o controle tecnológico, evitando didatismos e permitindo que as dinâmicas de poder emerjam das entrelinhas, qualidade rara de um cinema maduro. A fotografia com granulação acentuada, a escolha estética pelo preto e branco no formato 4:3, o desenho de som e a trilha sonora contribuem organicamente para a narrativa que imerge o espectador no desespero de seu protagonista. Embora as diversas referências cinematográficas sejam perceptíveis, a obra ao mesmo tempo carrega a sua personalidade autoral, consolidando-se como realização que equilibra excelência formal, profundidade temática e coesão rítmica de forma exemplar.

Cine horror resgata obra-prima dos anos 1970