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O GRITO ENFRAQUECIDO E O PÂNICO EVANESCENTE

Por: Michel Goulart da Silva

Em dezembro de 1996 estreou o filme Pânico (no original, com o título Scream), dirigido por Wes Craven. Em fevereiro de 2026, estreou o mais recente filme da franquia. Depois desses quase trinta anos e sete filmes, o que se viu foi o mesmo que aconteceu com todas as franquias do horror, ou seja, o paulatino enfraquecimento de suas ideias. Se por dois ou três filmes ainda seria possível ter alguma ideia criativa, certamente no sétimo há pouca coisa que se possa fazer.


Quando foi realizado, o primeiro Pânico se mostrou uma espécie de ar puro no horror, em meio a roteiros previsíveis e a ideias que se repetiam sem criatividade filme após filme. O filme partia de ideia simples, inclusive testada por Wes Craven em seu retorno anos antes ao universo de A Hora do Pesadelo, em 1994. O uso da metalinguagem mostrava um filme de horror que problematiza os filmes de horror, desnudando seus mecanismos narrativos ao mesmo tempo em que retomava elementos centrais do gênero, em especial o suspense em substituição à pilha de cadáveres largados em alguma floresta distante.


Os três filmes que se seguiram ao primeiro Pânico, embora inferiores em termos de direção e roteiro, ainda mostraram alguma criatividade. O processo de autorreflexão permanecia, como na reflexão sobre a qualidade de uma sequência, nos problemas enfrentados por uma trilogia e, por fim, nas dificuldades que um reboot pode trazer. Entre o primeiro e o quarto filme, lançado em 2011, se passaram quinze anos. Nesse período, mesmo que tenham ocorrido mudanças no cinema do horror, o contexto ainda era muito semelhante ao que havia encontrado o primeiro Pânico.


Houve um longo intervalo, inclusive com uma série de televisão no meio. O quinto filme foi lançado em 2022. Era uma outra época, a começar pela ausência de Wes Craven, que morreu em 2015. Contudo, a diferença não era ausência física daquele que foi um dos grandes gênios do horror em sua geração, mas do gênero de conjunto. Tendo como marcos obras como A Bruxa e Corrente do Mal, e vendo surgir diretores como Jordan Peele e Mike Flanagan, o gênero se viu em processo de renovação. Novamente, a solução para a renovação se mostrava alfo relativamente simples, ou seja, retornar aos clássicos, como o fez Robert Eggers ao dirigir um assustador folk horror ou David Robert Mitchell em inserir uma trilha sonora perturbadora que muito lembrava o trabalho de John Carpenter.


No caso de Pânico, não cabia mais centrar sua narrativa em fazer uma metalinguagem que dialogasse com a crise do slasher da década anterior. Portanto, ao retomar a franquia em 2022, o diálogo deveria ser interno, com os próprios antecessores, fazendo o que em determinado momento é definido como filme homenagem. Trazendo dois talentosos criadores da mais recente geração do horror, Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, e dialogando com as novas tecnologias, o quinto filme acabou conseguindo se mostrar um dos melhores da franquia, apesar de todos os desafios.


Contudo, depois do quinto filme, o espaço para uma continuidade era mínimo, para não dizer inexistente. Com isso, o sexto filme e sua ideia de um “museu” da franquia se mostrou desde o início um desastre completo, além de não contar com sua tradicional protagonista Sydney. E, por fim, o sétimo filme, que não define qual o centro de sua história – se questionar Sydney sobre sua ausência no filme anterior ou apresentar um potencial sucessora como final girl, sua filha Tatum – mostra-se um aglomerado de clichês óbvios. O filme em alguns momentos tenta se afastar da franquia original, se mostrando uma obra de horror como qualquer outra produção ruim que se possa encontrar em outros lugares, e em outros tentar fazer as mais óbvias referências e homenagens, repetindo se forma nada criativa o que se tentou nos dois filmes anteriores.


O primeiro grito mostrou algumas das grandes inovações do gênero, no final de 1996. Os três filmes que se seguiram, ainda que com solavancos e disparidades, foram expressão do gênio de Craven. O filme da retomada, ao se centrar em fazer uma homenagem, se mostrou digno de figurar entre os melhores da franquia. Contudo, nos dois filmes mais recentes, a insistência em usar uma a mesma fórmula de três décadas atrás vem se mostrando um desastre completo. Os novos gritos não devem apenas repetir, de forma insonsa e desbotada, aquilo que se mostrou criativo há trinta anos. O mundo é outro, o cinema é outro, o horror é outro.


Matérias
https://www.cinehorror.com.br/materias/o-grito-enfraquecido-e-o-panico-evanescente?id=1847
| 459 | 08/05/2026
Uma análise da franquia Pânico (Scream) em seu aniversário de 30 anos
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