Um tema bastante explorado no cinema de horror foi o das representações de surtos e epidemias. O mais comum nessas histórias são aquelas em torno de um apocalipse em que o mundo foi tomado por zumbis. Contudo, existem também histórias que se passam em espaços menores e não possuem uma abrangência global explícita. Essa abordagem pode ser vista no filme Calafrios (Shivers), do cineasta David Cronenberg, lançado em 1975.
No filme, o diretor canadense explora uma história na qual um parasita geneticamente modificado é introduzido em um complexo de apartamentos de luxo. Criado para reverter a repressão sexual humana, o parasita transforma seus hospedeiros em criaturas com desejo sexual insaciável e comportamento agressivo.
Os infectados começam a atacar os outros moradores do prédio, transmitindo o parasita através de contato sexual. A velocidade com que o parasita se espalha, transformando indivíduos pacíficos em seres dominados por desejos primitivos, mostra a rapidez com que uma epidemia pode se alastrar.
Os infectados mostram uma sexualidade exacerbada, que pode ser entendida como uma metáfora para a perda de controle e a regressão a instintos primitivos. Em tempos de crise, as normas sociais se desfazem e os desejos reprimidos vêm à tona, revelando um lado sombrio das pessoas. Um exemplo dessa perda de controle é mostrado na cena da orgia coletiva no salão de festas do condomínio.
O medo se espalha tão rapidamente quanto o parasita, criando um ambiente de desconfiança e violência. As cenas de moradores se escondendo uns dos outros evidenciam a paranoia que se instaura.
O filme faz uma crítica à falsa sensação de segurança proporcionada pelas expectativas da vida moderna. O condomínio de luxo, com sua aparente perfeição, se torna um local de horror, expondo a fragilidade das estruturas que protegem as pessoas. A cena da invasão do parasita nos apartamentos luxuosos contrasta a falsa segurança com o horror real.
O filme também aborda o papel individual e coletivo das pessoas. A negligência e o egoísmo de alguns dos moradores do condomínio contribuem para a propagação do parasita. Essa negligência é exemplificada pela postura de algumas pessoas que ignoram os avisos de cuidado.
No filme, se mostra a ideia de consumo em torno de um condomínio que promete, além do espaço para morar, saúde, lazer e tudo que seus moradores possam desejar. No começo do filme é mostrado um jovem casal que procura um apartamento no condomínio. São exibidas peças publicitárias que falam do conforto e das qualidades daquele empreendimento. Essas peças têm um claro tom irônico em torno de publicidades que, ainda hoje, podem ser vistas em anúncios desse tipo. O filme tem um evidente tom irônico em relação a essas promessas de produtos para consumo.
Cronenberg utiliza elementos visuais e sonoros para intensificar a sensação de horror e desconforto. Composta por sons agudos e dissonantes, a trilha sonora contribui para criar uma atmosfera de tensão constante. As cenas de violência e transformação dos personagens são mostradas de maneira crua e explícita. O uso de efeitos práticos dá um toque mais realista e visceral às cenas, tornando-as ainda mais impactantes para o espectador.
Cronenberg faz uma análise das estruturas sociais e das relações de poder. A cena final, com os sobreviventes tentando escapar do condomínio, nos leva a refletir sobre o impacto disso para as pessoas e a perspectiva que devemos ter em nossa vida em sociedade. O condomínio de luxo, que deveria ser um refúgio seguro e confortável, se transforma em um microcosmo de caos e destruição, refletindo as falhas e contradições da nossa sociedade.

A terceira edição da Mostra de Cinema CINE HORROR acabou no sábado, dia 27 de outubro, após uma jornada de 5 dias, divididos em 2 finais de semana, com 72 filmes sendo exibidos, entre curtas e longas,e ainda contamos esse ano com uma mesa de bate papo fantástica!!!! Confira no texto algumas de nossas impressões sobre o evento.