Em 2022, foi retomada a franquia Pânico, com o lançamento de seu quinto filme. Em grande medida, esse filme resgata o que sempre foi o centro da franquia, ou seja, o uso do suspense para refletir sobre o fazer cinematográfico.
Em Pânico (2022) (sim, seu nome é apenas Pânico, tal qual o original de 1996 - mas para não causar confusão, será usado o ano de lançamento para diferenciá-lo), o espectador é apresentado a um novo grupo de jovens da cidade fictícia de Woodsboro, na Califórnia. O centro da história se dá em torno de Sam e de sua irmã mais nova, Tara. Sam é filha de Billy Loomis, um dos assassinos do primeiro filme.
Em grande medida, a estrutura narrativa foi mantida em relação aos filmes anteriores. Há um prólogo violento, no qual Tara é atacada, e depois são apresentados os possíveis suspeitos, que fazem parte do grupo de amigos de Sam e Tara. Segue uma série de cenas de perseguição e assassinato promovidas pelo misterioso assassino mascarado.
No final, retorna-se à casa do massacre ocorrido no primeiro filme, com direito a uma grande festa e mais algumas mortes. Revela-se, por fim, a identidade de quem vinha cometendo os assassinatos e as motivações, completando um ciclo que remete não apenas ao primeiro, mas a quase todos os filmes da franquia.
No filme, como em toda a franquia, a metalinguagem é um dos principais elementos narrativos utilizados para contar a história. Na cena introdutória, com Tara, é feita menção a Billy, pai de sua irmã, e, como no primeiro filme, aproveita-se para emitir algumas impressões sobre cinema de terror desenvolvido naquele momento. Neste filme, a protagonista, Sam, é apresentada a “regras” que estariam sendo seguidas pelo assassino e que remete a uma série de filmes de terror. E Sam ouve essas explicações de Mindy, sobrinha de Randy Meeks, o cinéfilo dos dois primeiros filmes da franquia.
São recriadas e reinterpretadas cenas icônicas, como a da morte da garagem ou a do perigo de assassinato no mesmo sofá da mesma sala, ambas do primeiro filme. Esses e outros exemplos procuram apresentar homenagens à obra de Wes Craven, diretor que deu vida aos primeiros quatro filmes. Essa questão da homenagem é trazida por Mindy, quando explica as características do reboot que o assassino parece pretender criar.
Os quatro filmes da franquia dirigidos por Craven tiveram como eixo reflexões sobre a criação cinematográfica. Em 1996, quando foi realizado o primeiro filme, o cinema de horror estava vivendo um esgotamento criativo, sendo dominado por péssimas sequências intermináveis de produções das décadas de 1970 e 1980. Os filmes repetiam histórias e vilões em novas produções marcadas pela completa falta de criatividade. Craven e Kevin Williamson, roteirista de três dos quatro primeiros filmes, tomaram esse material repetido e sem criatividade e, por meio da metalinguagem, fizeram uma reflexão crítica, se apropriando e reinventando clichês para criticar os clichês e até mesmo explicando detalhadamente como deveriam ser as sequências de uma franquia.
Com isso, o primeiro filme Pânico justamente reflete sobre o que há de repetitivo e caricato nos tradicionais slashers de então. Essa crítica é feita logo na cena introdutória do primeiro Pânico. O segundo filme problematizou a sequência, centralmente o segundo filme de uma franquia, colocando para si mesmo o desafio de superar a qualidade da obra original. E de imediato esclarece que a ideia de que o original é sempre melhor não passa de um mito.
No terceiro filme da franquia são apresentadas as regras da trilogia, ainda que parte das preocupações de Craven (nesse filme, sem a parceira com Williamson) pareçam ser um certo desconforto com lógica misógina de Hollywood. No quarto filme, Craven e Williamson, que retornou ao roteiro, fazem uma dura crítica aos remakes que destroem as obras originais e repetem sem criatividade fórmulas esgotadas.
O quinto filme da franquia Pânico está em outro contexto, mais de dez anos depois do anterior, em que as mudanças indicadas por Craven pareciam surtir efeito. Observa-se que filmes como A Bruxa, O Babadook (o favorito de terror de Tara, segundo a personagem fala em duas ocasiões), as produções de Jordan Peele, e os trabalhos envolvendo os produtores de Hereditário, além de outros filmes e mesmo obras de outras cinematografias, mostram um novo momento para o cinema de horror. O horror, assim, mostra sua força, por meio de filmes criativos e com narrativas diversas e pela ruptura com a repetição de sequências prontas.
No quinto filme da franquia Pânico, dando vazão ao legado de Craven, se critica a forma doentia como uma parcela dos fandom encaram suas próprias obras favoritas, entendendo que, se não é feito ao seu gosto, é um lixo que precisa ser refeito. Embora a maior parte dos admiradores de uma obra sejam pessoas saudáveis e que estão mais interessadas em aproveitar o prazer daquilo que assistem, também existem espaços e fóruns em que impera um clima tóxico e onde se exalam ódio contra diretores, produtores, atores, trizes ou mesmo para qualquer pessoa que discorde de sua opinião.
Em Pânico (2022), os criadores problematizam o que as pessoas que vivem no lixo dos fóruns tóxicos fariam se resolvessem recriar seu filme favorito – no caso, o fictício Stab, mostrado desde o segundo Pânico. No caso, essa refilmagem seria um lixo cheio de clichês e mortes. No geral, Pânico (2022) é um bom filme, seja pela crítica atual a certos ambientes tóxicos da internet, com suas fake news e mentiras difundidas amplamente, seja pela apresentação de duas novas protagonistas muito bem interpretadas, e pela homenagem a Craven.
Pânico (2022) está disponível no Brasil em streaming pela Paramount+.

A quinta edição do evento, por conta da atual pandemia, acontecerá de forma online.