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REVIVENDO O INFERNO EM HELLRAISER (2022)

Por: Michel Goulart da Silva

Em 2022, estreou a refilmagem do clássico Hellraiser: Renascido do Inferno. O filme faz uma releitura completa do primeiro filme e mesmo da obra original, escrita por Clive Barker. O primeiro filme foi dirigido pelo próprio Barker, em 1987. O mais recente filme mostra uma releitura da mitologia desenvolvida ao longo de cerca de quarenta anos em livros, filmes, quadrinhos e mesmo em games. O novo filme atualiza temas anteriormente abordados e, também, traz perspectivas e preocupações contemporâneas.


O novo filme apresenta como protagonista a jovem Riley McKendry (interpretada por Odessa A'zion, que fez algumas aparições em Ghosts e recentemente foi um dos destaques em I Love LA), numa fase de sobriedade depois da recuperação por uso de drogas. Esse perfil contrasta com a protagonista da obra original, a bondosa Kirsty, cujos problemas estão muito menos relacionados ao seu comportamento e mais à sua família desestruturada. Kirsty se aproxima mais da final girl típica dos filmes de terror da década de 1980, inclusive em seu comportamento pudico, muito diferente de Riley, cuja primeira aparição no novo filme se dá em uma cena de sexo.


Riley, em determinado momento, acaba se deparando com a famosa caixa do quebra-cabeça, cujas diferentes configurações expressam o próprio desenvolvimento da narrativa do filme. O desaparecimento do irmão e a busca por ele, uma das vítimas da perigosa lâmina que a caixa possui, levado e possivelmente morto pelos cenobitas, é o que motiva a busca de Riley por entender o misterioso artefato. Nesse processo, outras pessoas – e até mesmo um dos cenobitas – acabam sendo vítimas em alguma das configurações da caixa.


O filme, a partir de seu segundo ato, ganha um tom de narrativa policial, com Riley buscando informações que possam ajudá-la a entender as configurações da caixa e, com isso, descobrir o que houve com seu irmão. Poderia, assim, chegar à configuração de Lázaro, a quinta, que possibilitaria ressuscitar o seu irmão. Descobre-se, então, que um personagem apresentado nos primeiros minutos do filme era um fanático que atraía pessoas para serem vitimadas pelos cenobitas e, com isso, fazer avançar as configurações.


Depois de fazer com que a caixa chegasse até sua última configuração, Leviatã, que permitiria escolher o presente associado a qualquer uma das configurações, Riley opta pela primeira configuração, o lamento, ou seja, por seguir vivendo com o luto pela morte do irmão e as consequências das escolhas que fez ao longo de todas as configurações da caixa, inclusive o sofrimento e as mortes que causou. Se nos filmes originais, em especial no segundo, se viu literalmente o inferno, nesta nova produção o inferno se mostra no sofrimento subjetivo vivenciado por Riley.


Se no primeiro filme o principal conflito subjetivo da protagonista passava pelo embate com a traiçoeira madrasta, a refilmagem coloca Riley em meio a muito mais conflitos – as drogas, o namorado criminoso, a instabilidade da relação com o irmão, as escolhas que faz, entre outras coisas. E isso tudo em meio à tentativa de sobreviver no inferno trazido pelos cenobitas.


O filme mostra uma jovem depressiva que tenta encontrar um caminho para tentar sobreviver em um mundo que só lhe traz sofrimentos, tendo de chegar à conclusão de que não há outra forma de viver que não seja encarando seus medos e fantasmas. Riley consegue seguir em frente, ao final do filme, apenas quando tem a clareza das consequências de seus atos, buscando, em certa medida, uma forma de redenção para seus pecados.


Estética e tecnicamente, o filme mostra-se uma excelente produção, além de ter um roteiro bem escrito, e com seus vários elementos bem amarrados. Os cenobitas, recriados em alguns aspectos de sua aparência, provocam todo o pavor da obra original. E, claro, ao apresentar uma líder mulher para os cenobitas, o novo filme resgata a primeira ideia expressa no livro que originou a franquia, onde se descrever a personagem mais como uma figura andrógena.


Um elemento negativo do filme passa pelas interpretações, que em sua maioria são pouco consistentes e até mesmo canastronas. São exceção Odessa, que mostra uma convincente protagonista, e a excelente Jamie Clayton (mais conhecida pela atuação nas novas temporadas da série The L Word), que teve o grande desafio de estar à altura de assumir o manto do icônico personagem tradicionalmente conhecido como “Pinhead”. Odessa e Jamie fazem boas interpretações e, em seu embate, garantem uma boa história.


O novo filme mostra estar à altura do legado não só da primeira produção, dirigida com poucos recursos pelo próprio Clive Barker, mas também da complexa e gigantesca mitologia produzida ao longo de décadas, deixando a expectativa de que posso ser feita uma continuação que traga novamente Odessa e Jamie.


Matérias
https://www.cinehorror.com.br/materias/revivendo-o-inferno-em-hellraiser-2022?id=1884
| 349 | 30/05/2026
O mais recente filme da franquia Hellraiser atualiza temas anteriormente abordados e também traz perspectivas e preocupações contemporâneas.
  
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