O conjunto de representações sobre o amadurecimento físico e psicológico das mulheres mostrados no cinema de horror carrega um forte tom de conservadorismo. Como resultado disso, como se trata de uma cinematografia em que muitas das narrativas estão centradas no comportamento de jovens, é como que a puberdade seja representada como uma expressão de monstruosidade. Nessas narrativas, o amadurecimento dos jovens pode estar associado a se tornar, literalmente, um monstro, em especial devido ao despertar da sexualidade, que seria a principal causa de descontrole.
O filme Ginger Snaps (algo como “As Dentadas de Ginger” ou então “Ginger Morde”), de 2000, traduzido para o português para Possuída, é uma mostra dessa representação conservadora da juventude. O filme é o primeiro de uma trilogia centrado nas duas irmãs. Possivelmente foi o primeiro papel de destaque de Katharine Isabelle (que viria a se tornar uma atriz de destaque em obras de horror, tendo participação inclusive de episódios da série Supernatural) que, ao lado de Emily Perkins, constrói uma excelente dinâmica entre as duas irmãs.
O filme é centrado na história das irmãs Ginger e Brigitte, mostrando sua vida na escola, onde são bastante deslocadas em relação aos colegas, e na família. Elas têm um comportamento bastante mórbido, tendo inclusive feito um pacto de morrerem juntas. Numa noite as duas irmãs são surpreendidas por um lobo, que acaba atacando Ginger. Enquanto Brigitte faz de tudo para conseguir curar a irmã, Ginger começa a se transformar em uma fera.
O ataque acaba sendo apresentado em sua associação com sangue, afinal a criatura teria sido atraída pelo cheiro da menstruação de Ginger. A transformação pela qual passa é também a do desabrochar de sua sexualidade, associado à transformação de seu corpo e, também, à mudança de comportamento em relação aos colegas e inclusive em relação à sua irmã. Em certa medida, Ginger rompe com o círculo afetivo familiar e, por meio das mudanças físicas e comportamentais, se aventura no mundo.
Isso se mostra em sua mudança de visual, passando a mostrar uma postura mais segura e a usar roupas que exibem seu corpo. Ou então a procurar amizades ou mesmo relacionamentos fora do círculo restrito da irmã. Contudo, ao mesmo tempo, as mudanças físicas vão ficando mais evidentes, não se limitando apenas ao nascimento de pelos, mas também o crescimento das unhas e dos dentes e mesmo de um rabo em suas costas. Essa mudança também se expressa no humor de Ginger, que passa a estar quase sempre irritada ou incomodada com o que quer que seja.
Ginger acaba também tendo sua primeira relação sexual, que se torna uma questão importante do ponto de vista da metáfora na narrativa do filme. O sexo, feito sem proteção, faz com que a infecção de Ginger passe para a pessoa com quem manteve a relação sexual. O próprio ato sexual é, por assim dizer, apresentado como algo um tanto quanto violento, animalesco, como a representar a sexualidade juvenil como algo fora de controle. O sangue também ganha importância em outro aspecto, na medida em que se mostra como uma forma de contágio. É por meio dele que a doença se espalha.
Na dinâmica entre as duas irmãs, o principal é como a transformação física e mental de Ginger a faz se afastar de Brigitte. Esta, por sua vez, se lança de forma desesperada em busca de uma cura para a irmã. Como um desdobramento do pacto entre as duas irmãs, Brigitte coloca seu sangue em contato com Ginger, se contaminando. Isso faz com que Brigitte também passe pelo mesmo processo de transformação, mostrado em um segundo filme.
Contudo, com o avanço da transformação de Ginger, esta fica incontrolável e, no clímax do filme, ela se torna fisicamente um animal que parece completamente dominado por instintos. Na narrativa, a solução encontrada no desenlace é conservadora: o retorno para a família. Brigitte, que mesmo diante do afastamento da irmã se manteve leal a Ginger, acaba arriscando a própria vida para tentar salvar a irmã. Simbolicamente, Ginger morre nos braços da irmã, ou seja, no conforto do retorno ao lar (sentimental e fisicamente falando). Portanto, além de mostrar uma narrativa conservadora no sentido de associar a sexualidade a um comportamento monstruoso, o filme também faz uma defesa da família como lugar seguro e estável de retorno para os jovens que desviam de um caminho tido como padrão.

Entramos em 2020 e com isso vem a responsabilidade muitas vezes ingrata de avaliar, sempre com aquele olhar pessoal, quais obras se sobressairam no cinema de horror em 2019.