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SOV: TRAJETÓRIA TROPICAL EM FOCO

Por: Saul Mendez Filho

O projeto Tropical SOV, idealizado por Petter Baiestorf, reúne curta-metragens de realizadores de diferentes gerações e regiões do país, inclusive da Bahia e outros estados do Nordeste. O projeto conecta experiências diversas em torno de uma mesma prática: fazer cinema com os recursos disponíveis. Mais do que uma antologia, ele funciona como uma forma de organizar e dar visibilidade a uma produção que sempre existiu fora dos centros tradicionais e esse movimento de contracultura chega ao Cine Horror com a exibição especial de Tropical SOV em uma sessão especial no dia 23 de maio (mais infos aqui).


Os filmes reunidos apontam para uma expressão artística que independe de um modo de produção específico (o que, nesta década, está representado pela grande presença de captação em aparelhos mobile), contando com amigos e conhecidos como equipe e elenco, onde os participantes assumem várias funções ao mesmo tempo. Além disso, limitações técnicas deixam de ser um problema e passam a fazer parte da linguagem. Nesse contexto, o SOV não é apenas uma condição técnica, mas uma forma de pensar a própria situação do cinema.


1. Canibais e Videografias

Na década de 1990, em um momento de redução da produção cinematográfica institucional no Brasil, o shot on vídeo se tornou uma alternativa viável para a realização de filmes. Foi nesse contexto que iniciativas como a Canibal Filmes ganharam espaço, organizando uma cena baseada na produção em VHS, na circulação por correio e na troca entre realizadores. O nome de Petter Baiestorf aparece aqui, não apenas como organizador, mas como parte importante dessa trajetória. Os filmes desse período combinavam elementos de gore, humor e experimentação, e eram exibidos fora dos circuitos tradicionais. Essa produção ajudou a manter o cinema de horror ativo no país e contribuiu para a formação de uma estética própria, marcada por imagens diretas e liberdade narrativa.

A relação entre o SOV e o horror se desenvolveu de forma consistente ao longo do tempo. O vídeo se mostrou adequado para o gênero por sua capacidade de transmitir uma sensação de proximidade com o que está sendo filmado. Características como baixa definição, ruídos eletrônicos e instabilidade da imagem passaram a ser usadas como recursos expressivos. Esses elementos criam a impressão de que as imagens são registros mais imediatos e influenciou formatos posteriores como o found footage, onde o próprio suporte faz parte da narrativa.

2. O Berço Eletrônico

Para entender melhor esse percurso, é útil voltar aos anos 1960, quando o vídeo começa a ser usado como linguagem artística. Nesse período, nomes como Nam June Paik exploraram o uso de câmeras portáteis para registrar o cotidiano, propondo uma relação diferente com a imagem em movimento. A videoarte trouxe uma abordagem que valorizava o processo e a experimentação, afastando-se das formas narrativas mais tradicionais. Essa base foi importante para o desenvolvimento posterior do SOV.

A partir dos anos 1980, com a popularização das camcorders e dos sistemas de gravação doméstica, o vídeo passou a fazer parte do cotidiano. Esse processo ampliou o acesso à produção audiovisual e permitiu que mais pessoas realizassem seus próprios projetos. O SOV se consolidou como uma prática presente em diferentes níveis, desde produções caseiras até trabalhos mais estruturados. Esse movimento também ocorreu em outros países, assumindo características locais em lugares como Japão, Estados Unidos, Nigéria e regiões da Europa, sempre ligado a formas independentes de produção.

3. Ontem, Hoje e Sempre

Dentro desse panorama, Tropical SOV pode ser visto como uma síntese contemporânea desse percurso, abraçando todas as possibilidades que as novas tecnologias de bolso, aplicativos e computação gráfica nos permitem hoje dentro de casa. Ao reunir realizadores com trajetórias distintas, o projeto mostra que o shot on video não está ligado apenas a esse período do passado, mas que continua ativo em diferentes contextos. Mais do que um resgate, trata-se de uma atualização que reafirma o valor de um cinema feito fora dos padrões dominantes. Em um cenário marcado pela padronização técnica e estética, o SOV permanece como uma alternativa possível, baseada em escolhas simples, uso direto dos recursos e liberdade de criação. E uma sequência do projeto já está engatilhada, com lançamento previsto para o segundo semestre de 2026. Assista ao trailer abaixo:

Matérias
https://www.cinehorror.com.br/materias/sov-trajetoria-tropical-em-foco?id=1851
| 684 | 11/05/2026
Tropical SOV e a história do movimento shot on video
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