2025 marca um momento bastante especial para a carreira de Rachel Daisy Ellis. Se por um lado neste ano seu longevo trabalho como produtora foi reconhecido com a ótima recepção de “O Último Azul” no Festival de Berlim, que premiou o filme com o Urso de Prata, por outro ela se prepara para lançar nos cinemas seu primeiro longa-metragem como diretora. Depois de levá-lo a importantes festivais, como o CPH:DOX, na Dinamarca, e a Mostra de Cinema de Tiradentes, em 12 de junho Ellis apresenta oficialmente ao público o documentário EROS, fruto de um extenso trabalho de pesquisa sobre a maior instituição de sexo do país, o motel.
A decisão de assumir a direção do projeto surgiu como uma progressão natural na trajetória de Ellis, especialmente depois de dirigir o premiado curta documental “Mini Miss”, em 2018. Mas nem por isso este passo foi menos desafiador. “Há alguns anos percebi que certos assuntos estavam surgindo que eu queria ver filmes sobre e fui tomando a coragem de começar a organizar essas ideias em torno de propostas autorais minhas”, explica a cineasta. “EROS é um projeto de filme que tive na cabeça durante muitos anos. Uns 4 anos atrás, comecei a aprimorar como imaginava o filme sendo realizado.”
é um projeto de filme que tive na cabeça durante muitos anos. Uns 4 anos atrás, comecei a aprimorar como imaginava o filme sendo realizado.”
O interesse pelo motel é de fato antigo. Desde que Ellis chegou ao Brasil, há 21 anos, estes estabelecimentos lhe despertaram certo fascínio. Afinal de contas, eles encapsulam bem a contradição quando o assunto é sexo: ao mesmo tempo que são absolutamente cotidianos, são também motivo de desconfiança e tabu. "A presença constante dos moteis na paisagem urbana gerava em mim uma enorme curiosidade. Queria entender como o motel, que surgiu como um lugar seguro para pessoas passarem algumas horas íntimas em plena ditadura, passou a compor parte da identidade sexual do país", lembra.
Mas sua pesquisa também lhe revelou como a suíte do motel pode ser também um palco, que convida as pessoas a performarem um jogo de sedução – e essa percepção informou a maneira como Ellis decidiu conduzir seu primeiro longa. Durante o longo processo de pesquisa do filme a cineasta convidou pessoas com quem desenvolveu maior intimidade e cujas histórias fugiam do estereótipo clássico do frequentador de motel para filmar uma de suas noites. Alguns toparam, e estão no filme.
Uma curiosidade é que o primeiro longa que ela produziu, “Doméstica”, de Gabriel Mascaro, também usou do autorregistro como dispositivo. “A experiência de produzir ‘Doméstica’ me marcou profundamente. Também tenho uma formação acadêmica em metodologias participativas. Assim, este interesse de explorar o autorregistro foi muito orgânico e, ao mesmo tempo, encaixava perfeitamente na proposta de adentrar na intimidade que EROS procurava fazer.”
“Quando percebi que era possível juntar minha curiosidade em torno dos moteis com um dispositivo participativo-observacional, percebi que existia aí uma proposta de filme que queria muito realizar”, afirma. “Queria explorar como as pessoas se filmavam no espaço do motel a pedido da realizadora de um documentário que refletia sobre o espaço físico, mas também abria um contexto para falar sobre o amor, a intimidade e o sexo.”
“Queria explorar como as pessoas se filmavam no espaço do motel a pedido da realizadora de um documentário que refletia sobre o espaço físico, mas também abria um contexto para falar sobre o amor, a intimidade e o sexo.”
EROS demandou, portanto, que Ellis abdicasse em alguma medida do controle e deixasse que seus personagens escolhessem o que gostariam de registrar da sua experiência, uma decisão criativa que se mostrou muito proveitosa. “Optar por um dispositivo muito restrito para mim foi essencial para conseguir adentrar na intimidade das pessoas, porque exatamente nessa tensão encontrei a potência do filme”, analisa a cineasta, que trabalha hoje em outros dois projetos de longa documental que também se valem do autorregistro como linguagem. “Fui percebendo que a força do filme estava nos limites que o dispositivo me impunha, e que tinha algo muito mágico no que as pessoas estavam dispostas a compartilhar e no quanto isso dizia sobre a instituição como um todo. Ali o filme transbordava.”
“Fui percebendo que a força do filme estava nos limites que o dispositivo me impunha, e que tinha algo muito mágico no que as pessoas estavam dispostas a compartilhar e no quanto isso dizia sobre a instituição como um todo. Ali o filme transbordava.”
O resultado deste trabalho pode ser conferido a partir de 12 de junho, quando EROS entra em cartaz nos cinemas brasileiros, com distribuição da Fistaile.

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