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COPAN

Por: Saul Mendez Filho

COPAN | Brasil | 2026
Direção: Carine Wallauer
Roteiro: Carine Wallauer
Distribuição: Vitrine Filmes
Duração: 98 minutos
Sinopse: No coração de São Paulo, ergue-se um gigante de concreto. Projetado por Oscar Niemeyer e inaugurado em 1966, o edifício Copan abriga mais de cinco mil moradores e se torna palco de uma eleição acirrada para síndico, há trinta anos no mesmo cargo, enquanto Lula e Bolsonaro disputam a presidência do país.


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Dirigido pela documentarista e artista visual Carine Wallauer, COPAN acompanha o cotidiano do emblemático edifício paulistano durante o período das eleições presidenciais de 2022, articulando a vida íntima de moradores e funcionários às tensões políticas que atravessavam o país naquele momento. Antes da estreia comercial, o filme conquistou o prêmio de Melhor Filme Brasileiro no festival É Tudo Verdade, além de integrar a competição oficial do CPH:DOX, sendo o único representante latino-americano daquela edição. Wallauer, que morou no edifício por sete anos, parte dessa relação íntima com o espaço para construir um retrato observacional que mistura realismo social, crônica urbana e comentário político.


Projetado por Oscar Niemeyer e inaugurado em 1966, o Edifício Copan é um dos maiores símbolos arquitetônicos da cidade de São Paulo e da arquitetura modernista brasileira. Com sua famosa fachada sinuosa de concreto armado, o prédio possui mais de cem metros de altura, mais de mil apartamentos e abriga uma população que ultrapassa os cinco mil moradores, de diferentes classes, profissões e estilos de vida. Ao longo das décadas, foi residência e ponto de encontro de artistas, intelectuais e figuras relevantes da cultura brasileira, consolidando-se não apenas como marco urbanístico, mas como um organismo vivo da experiência cultural paulistana, funcionando praticamente como uma pequena cidade vertical. Sua escala monumental, sua importância histórica e sua presença constante no imaginário audiovisual da cidade transformaram o edifício em um dos principais cartões-postais e pontos turísticos da capital paulista.


Desde as primeiras cenas, o documentário se desenvolve em ritmo lento, buscando como metodologia a câmera isenta, o registro de um observador oculto, que vai da intimidade do quarto dos moradores aos corredores onde funcionários da limpeza trabalham, perpassando o fluxo das áreas públicas do térreo e arredores, da cafeteria Floresta e da locadora sobrevivente Video Connection (onde, simbolicamente, o dono assiste a São Paulo Sociedade Anônima, de Luís Sérgio Person), do Copanzinho às salas administrativas onde funcionários fofocam e tomam café, até as intrincadas tubulações que permeiam o teto das garagens e espaços subterrâneos.


O que parece, a princípio, um mero exercício de interlocução silenciosa passa gradualmente a adquirir contornos de um discurso moldado pelos sons de rádios e televisores, que situam os registros durante a campanha presidencial de 2022, especificamente no segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro. O filme estabelece, então, um diálogo entre macro e micro política: entre a disputa eleitoral nacional e a engrenagem administrativa dessa construção que funciona como um enorme cruzeiro em meio à cidade de São Paulo, cujo funcionamento ultrapassa em muito o trabalho convencional de um síndico de prédio comum. O olhar quase clandestino da câmera invade uma reunião online para eleição do novo síndico (com menos de cem moradores presentes e apenas um candidato concorrendo à reeleição) em um dos momentos mais emblemáticos da obra. O documentário conclui registrando as reações de moradores, funcionários e frequentadores ao resultado das eleições presidenciais, condensando no recorte do Copan a polarização política brasileira daquele período.


É curioso observar que, mesmo adotando um formato muito mais interessante do que o documentário tradicional baseado em entrevistas e depoimentos diretos, a montagem ainda consegue transmitir uma mensagem específica. Por mais neutra que a câmera tente parecer, determinadas escolhas performáticas e de encadeamento constroem inevitavelmente uma fala autoral. Há aqui um forte exercício de linguagem audiovisual, em que imagens, sons ambientes e durações carregam sentidos que extrapolam as próprias falas dos personagens. Além disso, a simples presença da câmera altera o comportamento dos indivíduos registrados, algo perceptível em reações mecânicas, silêncios desconfortáveis e momentos de autocontrole que denunciam a consciência de estarem sendo observados.


Reconhecendo, portanto, que apesar de aparentar um certo deserto discursivo este documentário comunica muito mais do que sugere à primeira vista, chegamos talvez ao principal ponto problemático da experiência: a multiplicidade e abrangência dessas mensagens. O filme perambula demais, abandona constantemente sua possível linha central (o discurso sobre política e gestão) para tangenciar outros temas de maneira superficial, antes de retornar novamente ao eixo inicial. Como consequência, o próprio comentário político acaba perdendo parte de seu peso narrativo diante da incessante busca da câmera por novos assuntos e micro acontecimentos. Ainda assim, isso não diminui a força da experiência minimalista proposta por COPAN, nem a riqueza dos elementos que o atravessam. Trata-se de uma obra que certamente encontrará maior ressonância em espectadores pacientes, acostumados a um cinema de observação lenta, atento aos detalhes e interessado em antropologia urbana, relações sociais, política e, evidentemente, arquitetura.



COPAN estreia nos cinemas brasileiros no dia 28/05/2026.

Resenhas
https://www.cinehorror.com.br/resenhas/copan?id=1873
| 262 | 25/05/2026
No coração de São Paulo, ergue-se um gigante de concreto. Projetado por Oscar Niemeyer e inaugurado em 1966, o edifício Copan abriga mais de cinco mil moradores e se torna palco de uma eleição acirrada para síndico, há trinta anos no mesmo cargo, enquanto Lula e Bolsonaro disputam a presidência do país.
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