DIGGER | EUA / Reino Unido / México | 2026
Direção: Alejandro G. Iñárritu
Roteiro: Alejandro G. Iñárritu, Alexander Dinelaris, Nicolás Giacobone e Sabina Berman
Elenco: Tom Cruise, Riz Ahmed, John Goodman, Sandra Hüller, Michael Stuhlbarg. Jesse Plemons
Distribuição: Warner Bros.Pictures Brasil
Duração: 129 minutos
Sinopse: O homem mais poderoso do mundo embarca em uma missão frenética para provar que é o salvador da humanidade antes que o desastre que ele mesmo provocou destrua o planeta.
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Entre os filmes mais aguardados do ano, Digger chega cercado de expectativas. Com um elenco de peso e uma premissa grandiosa, a produção também carrega consigo a expectativa em torno de Tom Cruise, que mais uma vez assume o protagonismo em uma obra com potencial para colocá-lo no caminho da tão almejada corrida pelo Oscar. Reunindo nomes de destaque e uma história de grandes proporções, o filme chegou aos cinemas com a promessa de ser muito mais do que apenas mais um mero espetáculo hollywoodiano.
A premissa de Digger apresenta um cenário de catástrofe global, colocando um dos homens mais poderosos do mundo, o personagem Digger Rockwell (Tom Cruise), diante de um desastre ambiental que ameaça o futuro do planeta. A partir daí, a história acompanha sua tentativa de reparar os danos causados e recuperar a própria credibilidade, enquanto enfrenta as consequências de suas decisões.
A obra se apropria dessa premissa para construir uma linguagem narrativa marcada por uma metalinguagem diferenciada, algo que há algum tempo não se vê com tanta frequência em Hollywood. O resultado é um espetáculo que assume riscos tanto diante do público quanto da crítica, afastando-se de estruturas mais convencionais para construir sua própria experiência. Não por acaso, Digger vem dividindo opiniões e provocando impressões bastante distintas entre aqueles que se deparam com sua proposta.
Um dos pontos mais interessantes de Digger é a maneira como a direção conduz a narrativa. Diante de uma história que poderia facilmente se render a uma sátira óbvia, o filme prefere brincar constantemente com o sentimento do espectador. Não há necessariamente grandes camadas no conto em si, mas elas surgem na própria estrutura de como essa história é contada. Tanto no material quanto na forma, a sátira aparentemente superficial vai dando espaço a algo mais profundo e real, fazendo com que os próprios personagens passem a questionar o conteúdo daquilo que está sendo registrado. É nessa escolha narrativa que o filme encontra seu tesouro.
Os plot twists são outro grande acerto do filme. Digger brinca com a audiência e a faz de boba em alguns momentos, mas sem jamais desrespeitar sua inteligência. As respostas estão sempre presentes, espalhadas pela narrativa, sem que o roteiro precise apontar para elas ou tratar o espectador como alguém incapaz de perceber o que está acontecendo. Aqui, a reviravolta não é utilizada gratuitamente apenas para causar impacto: ela nasce da própria construção da história. Do início ao fim, novas surpresas subvertem as expectativas de quem assiste e tornam cada vez mais curioso o cenário que o filme escolhe abraçar.
As surpresas funcionam melhor quando descobertas pelo próprio espectador, tornando difícil comentar sobre sua construção sem comprometer a experiência de quem ainda não assistiu. Por isso, quanto menos se revelar sobre suas reviravoltas, melhor.
Quantos aos aspectos mais técnicos, apesar da escala de sua premissa, o filme assume uma abordagem mais teatral, concentrando sua força na encenação, nos personagens e na forma como a história é conduzida. Assim, os efeitos cumprem seu papel sem disputar espaço com aquilo que realmente importa na narrativa.
A trilha sonora, por sua vez, se encaixa exatamente onde precisa estar. Simples, melancólica e, ao mesmo tempo, irreverente, ela acompanha as diferentes nuances da obra e traduz em melodia aquilo que o filme pretende provocar. Mais do que apenas ambientar as cenas, a música também brinca com os sentimentos do espectador, reforçando essa constante sensação de que a obra está sempre tentando conduzi-lo por caminhos inesperados.
As atuações também encontram um equilíbrio interessante entre o caricatural e o natural, afinal de contas, a própria história pede isso dos profissionais. Os atores conseguem transitar bem entre as características mais exageradas de seus personagens e versões mais contidas e “normais”. Essa alternância combina com a própria proposta do filme e contribui para manter a narrativa nesse constante jogo entre o absurdo, a sátira e momentos de maior seriedade.
Tom Cruise é, sem dúvida, um dos grandes destaques do elenco. Em um ano que, até o momento, não tem apresentado uma temporada particularmente inspirada para as produções voltadas ao Oscar, sua interpretação em Digger merece atenção. O ator demonstra entrega e dedicação ao viver Digger Rockell, um bilionário completamente desconectado da realidade que, ao longo da história, passa a compreendê-la de maneira gradual.
Cruise consegue imprimir essa transformação também por meio da própria expressão, utilizando caras e bocas, olhares e pequenos gestos para construir a personalidade do personagem e transmitir suas mudanças sem depender apenas do texto. Mesmo completamente caracterizado, com maquiagem e próteses utilizadas para transformar fisicamente sua aparência, o ator consegue fazer com que Digger tenha presença e personalidade próprias. É uma atuação que demonstra cuidado na composição e que, pela entrega apresentada, o coloca como um nome que merece ser considerado entre os indicados desta temporada, pelo menos até o momento.
Apesar dos acertos, Digger tropeça em alguns momentos em que se torna palestrinha demais. Há passagens em que a história tenta aprofundar uma camada que já estava muito bem estabelecida nas entrelinhas, mas acaba explicando além do necessário e assumindo um tom um tanto prepotente. É como se, por alguns instantes, o filme deixasse de confiar na inteligência de sua própria audiência e sentisse a necessidade de explicar aquilo que ela já havia compreendido.
Felizmente, trata-se de poucos minutos de tela e não de um problema que comprometa a experiência como um todo. Ainda assim, são momentos que interrompem parte da sutileza construída anteriormente e impedem que a obra alcance um nível ainda maior de excelência.
A crítica ambiental e política já havia sido construída ao longo da narrativa, assim como a hipocrisia colocada como um dos fundamentos da destruição do planeta. Não havia necessidade de uma nova exposição, agora verbalizada de maneira tão direta, na tentativa de provocar novamente um impacto na audiência. Ao explicar aquilo que já havia sido mostrado e compreendido nas entrelinhas, a obra acaba subestimando momentaneamente seu próprio público.
Você pode até não gostar da forma como Digger escolhe contar sua história, mas é inegável o quanto Iñárritu imprime personalidade à obra e se apropria de sua linguagem para apresentar uma visão muito particular sobre os temas que aborda. Não se trata de um filme perfeito, seus momentos mais didáticos deixam isso evidente, mas é uma produção com identidade, coragem e uma disposição incomum para se aprofundar em sua temática e brincar com as próprias estruturas narrativas.
No mais, os demais aspectos técnicos se mostram eficientes e contribuem para uma experiência cinematográfica bastante consistente. Digger pode dividir opiniões, mas também é justamente esse caráter peculiar que faz dele uma obra interessante de ser descoberta nas telonas. Mais do que entregar respostas prontas, o filme encontra maneiras de provocar, surpreender e, sobretudo, deixar algo para ser discutido depois que os créditos sobem.
Digger estreia nos cinemas brasileiros no dia 01/10/2026.

O longa traz um casal de férias numa cabana na floresta, que são surpreendidos por um grupo de fanáticos religiosos que acreditam que eles serão a causa do início do Apocalipse.