FURNAS FUNDAS: UMA FÁBULA GÓTICA BRASILEIRA | Brasil | 2026
Direção: Beto Marquez
Roteiro: Antonia Baudouin
Elenco: Gabriela Dias, Eriberto Leão, Elisa Volpatto, Johnnas Oliva, Otávio Müller, Rodrigo Pandolfo
Distribuição: Capuri
Duração: 117 minutos
Sinopse: Na pequena cidade de Furnas Fundas, uma eleição feroz divide famílias, amigos e vizinhos. Enquanto todos disputam o futuro da cidade, ninguém percebe que um mal muito mais antigo está prestes a despertar. À margem de tudo está Bartira e sua improvável gangue de deslocados, figuras que a cidade prefere esquecer. Mas quando a violência da campanha eleitoral desperta uma força sombria adormecida há gerações, serão justamente os excluídos que terão de impedir que Furnas Fundas se transforme em um banho de sangue.
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Uma pequena cidade fictícia, inebriada e que abriga o descendente direto de Nosferatu. Furnas Fundas é uma fábula gótica, escrita por Antonia Baudouin a partir da história original de Reinaldo Moraes e adaptada ao cinema pela direção contundente de Beto Marquez. Conta ainda com excelente produção musical de André Abujamra.
A trama se confunde com a realidade brasileira ao acompanharmos as disputas que envolvem a eleição municipal. De um lado, o capitalista Marcão (Otávio Müller), candidato à reeleição e sua esposa, a influente vice-prefeita Rosália (Natália Lage), que assumem o compromisso de cuidar dos habitantes através do CATA- Centro de Acolhimento e Tratamento de Alcoólicos, enquanto os convence de devastar a cidade para os tratores dos lati (latifundiários). Do outro lado, o “comunista”, taxado de louco, Padre Jerô (Wilson Rabelo), que tenta alertar a população das forças do mal ameaçadoras.
Enquanto os candidatos estão em plena campanha, eventos misteriosos ocorrem, a tensão eleitoral aumenta e descobrimos um perigo ancestral de criaturas sobrenaturais que residem em mausoléus do cemitério. A gangue vampiresca liderada por Lilith (Elisa Volpatto) e Kesabel (Eriberto Leão), possui como plano sugar o sangue dos furnas fundenses para ressuscitar seu antigo líder supremo. Com todos alcoolizados, quem percebe isso é somente um pequeno grupo de rejeitados, formado pela sobrinha do padre, Bartira (Gabriela Dias), o medroso Luan (Johnnas Oliva) e o “vampirólogo” Tinhorão Policarpo.
Os personagens são todos muito bem construídos, os planos são dinâmicos e os principais destaques, sem dúvida, são os ângulos captados na montagem e edição. Nas cenas dos vampiros a estética gótica faz referência aos clássicos do expressionismo alemão, de Wiene e Murnau, enquanto a trama urbana se desenvolve como um melodrama novelesco, maneirista, recheado de clichês e troppos que transmitem o tom cômico, sem renunciar o terror, o erotismo e a fantasia.
Trata-se, sobretudo, de um desenvolvimento onde predomina a alegoria satírica à polarização social da crise política, característica da atual época de decadência hegemônica, conforme teorizada pelo filósofo italiano Antonio Gramsci. Para os marxistas fãs de terror, é impossível não remeter a simbologia das representações d'O Capital (2013, p. 307): “O capital é trabalho morto, que, como um vampiro, vive apenas da sucção de trabalho vivo, e vive tanto mais quanto mais trabalho vivo suga.”
Contudo, o conformismo social possui um sobrepeso evidente, afinal a população de Furnas Fundas se encontra dentro de uma situação de extrema vulnerabilidade, sem condições de assumir qualquer tipo de protagonismo. Gradativamente, o humor assume os contornos de uma tragédia, estabelecendo uma isonomia desproporcional na relação entre os dominantes e dominados. Mesmo que esse processo de alienação no filme esteja profundamente vinculado à corrupção estatal, os mecanismos de controle (consenso e coerção) e, dessa forma, a própria especulação do capital sobre o trabalho humano, a crítica determinante é dirigida centralmente ao desregramento dos habitantes que permitem aquela situação.
O roteiro correu um risco desnecessário ao isolar seu argumento principal de uma dimensão real do contexto em que está inserido. Embora haja um alerta à sobriedade, ele não basta para nos livrar do ceticismo: a obra acaba sofrendo da mesma "embriaguez ideológica" que tentou combater. Na fronteira entre ficção e realidade, Furnas Fundas: Uma Fábula Gótica Brasileira seguiu à risca a cartilha, dos códigos e convenções, de como deter vampiros — usando a luz solar, a decapitação e a estaca no coração. O erro da fábula brasileira foi falhar logo na primeira eleição que tentou retratar. Mesmo anestesiada, a força social insistiu em emergir: ocupou as ruas, conquistou reivindicações e provou que ainda pode alterar o curso da história.
Felipe Guarnieri é pesquisador e doutorando em Ciências Sociais na UNIFESP e administrador da página @plotcomtwist

Viva a nova carne!