DIGITE ABAIXO SUA BUSCA

HURRY UP TOMORROW: ALÉM DOS HOLOFOTES

Por: Ivan Rios (O Mago Supremo)

HURRY UP TOMORROW: ALÉM DOS HOLOFOTES (Hurry Up Tomorrow) | EUA | 2025
Direção: Trey Edward Shults
Roteiro: Trey Edward Shults, The Weeknd e Reza Fahim
Elenco: Abel Tesfaye (The Weeknd), Jenna Ortega, Barry Keoghan, Riley Keough, Ash T, Paul L. Davis, Sebastián Villalobos, Roman Mitichyan
Distribuição: Paris Filmes
Duração: 105 minutos
Sinopse: Um músico insone encontra uma estranha obcecada por seu trabalho e inicia uma jornada que desafia tudo o que ele sabe sobre si mesmo, chegando à beira de um colapso mental.


-----


Confesso que torci o nariz ao ler a sinopse e me deparar com a premissa. Um filme baseado em um álbum? Estrelado pelo próprio cantor? Tudo soava como mais uma dessas vaidades cinematográficas camufladas de arte—um espetáculo autopromocional embalado por trilha sonora própria e uma overdose de closes dramáticos. Já imaginava um desfile de egos, diálogos pomposos e frases de efeito milimetricamente calculadas.


Felizmente, estava errado. E, para meu próprio deleite, surpreendentemente errado.


Hurry Up Tomorrow: Além dos Holofotes, dirigido por Trey Edward Shults e inspirado no sexto álbum de The Weeknd, não é apenas uma extensão visual da música — é uma imersão sensorial que desafia o formato tradicional do audiovisual. Em vez de um desfile de autopromoção, o que temos é um mergulho inquietante nas tensões entre fama, identidade e delírio, embalado por uma estética surrealista e uma narrativa fragmentada que exige do espectador mais do que atenção: exige entrega.


A trilha sonora, composta por The Weeknd em parceria com Daniel Lopatin, não serve apenas como pano de fundo — ela conduz a experiência. Há uma sinergia rara entre som e imagem, com arranjos que flutuam entre o hipnótico e o angustiante, intensificando a espiral emocional do protagonista. O som aqui não ilustra; ele revela.


A direção de Shults é hipnotizante. Com sua assinatura visual marcada por luzes em neon, cortes abruptos e transições que espelham a mente em colapso do personagem central, o diretor constrói um universo claustrofóbico e onírico, onde a estética não é um adorno, mas parte essencial da narrativa. A influência de Baudrillard é nítida: o filme flerta com a hiper-realidade — essa zona cinzenta onde o real e o simulado se embaralham até a identidade virar ruído.


Jenna Ortega oferece uma performance de intensidade hipnótica, enquanto Barry Keoghan, como Lee, aparece como um espectro enigmático que, ao mesmo tempo, intriga e perturba. Ele assume múltiplos papéis na vida do protagonista—comparsa, quase irmão, empresário, confidente—tornando-se sua muleta emocional em meio ao caos crescente. Ambos elevam a tensão narrativa, atuando como contrapontos emocionais que amplificam os dilemas e o desmoronamento psicológico do personagem principal.


E falando nele: The Weeknd está... bem. Sua atuação provoca opiniões divididas—há um certo magnetismo, sim, mas também evidentes limitações. Em alguns momentos, parece que o peso simbólico do filme engole sua expressividade dramática, tornando sua presença mais um conceito visual do que uma entrega emocional plena. Ainda assim, sua performance se encaixa dentro da lógica estética proposta: um artista lutando entre persona e essência, aprisionado em um simulacro de si mesmo, onde a fama e a identidade se embaralham em um jogo psicológico sem vencedores.


É preciso deixar claro: Hurry Up Tomorrow não é para todos. Sua estrutura não-linear e a densidade simbólica podem frustrar quem busca linearidade ou respostas fáceis. Em vez disso, o filme oferece um quebra-cabeça sensorial com múltiplas leituras — o tipo de experiência que exige do público tanto quanto entrega.


A obra se ancora em referências filosóficas e cinematográficas robustas. De Nietzsche, herda a crise identitária e a ideia de um “eu” fluido, em constante reconstrução. De Baudrillard, a obsessão pela imagem e pela simulação. O protagonista vive uma jornada onde o real foi dissolvido em espetáculo — um mundo em que já não há diferença entre quem se é e quem se interpreta.


As comparações são inevitáveis. Há ecos de Cidade dos Sonhos (David Lynch), com sua fragmentação narrativa e exploração do subconsciente, e de Cisne Negro (Darren Aronofsky), na maneira como o desejo artístico se torna uma forma de destruição. Ambas as obras, assim como Hurry Up Tomorrow, exigem mais do que passividade: exigem envolvimento, interpretação, disposição para o desconforto.


A ambição do filme é clara — e por vezes excessiva. Em certos momentos, a trilha sonora sobrecarrega a cena; em outros momentos, o simbolismo (hermético e subjetivo) sufoca a emoção. Há um certo preciosismo estético que, embora belo, pode afastar quem espera uma experiência emocional mais direta e palpável. Mas talvez essa seja a intenção: deixar claro que, aqui, não se trata de agradar, e sim de provocar.


Hurry Up Tomorrow: Além dos Holofotes talvez não conquiste o grande público — e, para ser sincero, parece que nem se esforça para isso. Se havia alguma intenção de torná-lo comercialmente palatável, o resultado final vai na direção oposta, quase como uma afronta à previsibilidade do entretenimento de massa. Mas para quem vê o cinema como um terreno fértil para provocações estéticas e filosóficas, esta obra é um convite irresistível. É uma experiência rica, desafiadora e imersiva, que exige não apenas atenção, mas entrega. Vale o tempo, a paciência e, acima de tudo, a disposição de abandonar certezas e encarar o desconforto como parte do encanto.


Assista — nem que seja só para descobrir se você está pronto (ou não) para encarar o espelho que o filme insiste em nos devolver.



Hurry Up Tomorrow: Além dos Holofotes estreia nos cinemas brasileiros no dia 15/05/2025.

Resenhas
https://www.cinehorror.com.br/resenhas/hurry-up-tomorrow-alem-dos-holofotes?id=1458
| 627 | 15/05/2025
Um músico insone encontra uma estranha obcecada por seu trabalho e inicia uma jornada que desafia tudo o que ele sabe sobre si mesmo, chegando à beira de um colapso mental.
VEJA TAMBÉM

A CENTOPEIA HUMANA (2009)

Uma aula com Mr. Dieter Laser.

  
Design e desenvolvimento
#FFFFFF