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O BOSQUE SELVAGEM

Por: Matheus Lins

O BOSQUE SELVAGEM (Wildwood) | EUA / Reino Unido / Canadá | 2026
Direção: Travis Knight
Roteiro: Chris Butler (baseado no livro de Colin Meloy e Carson Ellis)
Elenco de dublagem: Peyton Elizabeth Lee, Jacob Tremblay, Carey Mulligan, Mahershala Ali, Awkwafina, Jake Johnson
Distribuição: Imagem Filmes
Duração: 130 minutos
Sinopse: Existe um bosque escondido logo depois da cidade, um lugar que não aparece em nenhum mapa e de onde dizem que ninguém volta. É para lá que o irmão de Prue é enviado por uma feiticeira que precisa dele para seus planos sombrios. Sem pensar duas vezes, Prue e seu amigo Curtis partem para o Bosque Selvagem para salvá-lo. Lá dentro, os dois encontram um mundo mágico, cheio de perigos, criaturas encantadas e segredos antigos.


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Filmes produzidos em stop motion costumam encantar pelo verdadeiro trabalho artesanal que existe por trás de cada cena. Há um cuidado minucioso na construção dos cenários, dos personagens e de seus movimentos, criando uma identidade visual que dificilmente passa despercebida. Em O Bosque Selvagem, esse capricho se revela logo nos primeiros segundos, conquistando o espectador pela riqueza de detalhes e pelo cuidado empregado em cada elemento que ganha vida na tela.


Na trama, acompanhamos Prue McKeel, uma jovem de 13 anos que parte em uma perigosa jornada para resgatar seu irmão mais novo, Mac, raptado por uma horda de corvos e levado para além dos limites de Portland, em uma região misteriosa que poucos sequer sabem que existe. Ao lado de Curtis, seu desajeitado colega de classe, Prue se aventura pelas profundezas de uma floresta mágica, onde encontrará animais falantes, bandidos e figuras sombrias com intenções macabras. Em meio aos perigos desse reino desconhecido, a jovem precisará enfrentar os desafios de um mundo que parece saído dos contos de fadas, enquanto atravessa a delicada transição entre a infância e a adolescência.


Por mais que estejamos falando de uma animação, O Bosque Selvagem está longe de ser apenas mais uma produção feita para reunir os pequenos diante da tela e arrancar algumas risadas da família. É claro que a fantasia e a aventura têm seu espaço, mas a obra também encontra terreno fértil para abordar questões bastante profundas, como o luto, a religiosidade, o respeito às diferenças e até mesmo ecologia. São temas que dão mais camadas à narrativa e mostram que, por trás de toda a magia que envolve esse universo, existe algo muito mais complexo a ser explorado.


A própria classificação indicativa de 14 anos já dá uma pista de que estamos diante de uma animação que exige um olhar um pouco mais atento. Isso não significa que o público mais jovem não possa se encantar com a jornada, mas vale a pena assistir à obra sem esperar apenas uma aventura divertida: há reflexões importantes escondidas entre suas criaturas fantásticas e seus cenários encantadores.


A obra reforça suas mensagens mais sérias não apenas por meio do roteiro e dos diálogos, mas também pela própria atmosfera que constrói. Estamos diante de uma história visualmente bela, repleta de cenários encantadores e criaturas fascinantes, mas que também sabe ser chocante quando necessário. Há momentos de violência e uma crueza que contrastam diretamente com a fantasia de seu universo, deixando claro que nem tudo é tão mágico quanto parece.


Para além das questões técnicas, também existe louvável mérito em encontrar esse equilíbrio: a obra não suaviza demais suas ideias a ponto de esvaziá-las, mas também não exagera na abordagem sombria a ponto de nos afastar da proposta original. É uma aventura que compreende a diferença entre uma história infantil e um conto juvenil, permitindo-se explorar temas difíceis sem perder o encanto e a identidade de seu mundo fantástico.


Tudo isso reforça a sensação de estarmos diante de uma mistura entre As Crônicas de Nárnia e A Viagem de Chihiro, combinando a grandiosidade de um reino fantástico com a estranheza e a riqueza simbólica de um mundo que parece funcionar sob suas próprias regras. Acompanhamos personagens que se veem diante de perigos, descobertas e situações que vão muito além de uma simples missão de resgate. É uma verdadeira aventura, daquelas que nos convidam a explorar cada canto desse universo enquanto, pouco a pouco, extraímos lições valiosas sobre a vida, as relações humanas e a maneira como enxergamos aquilo que é diferente de nós.


E mesmo com tantos elogios a serem feitos, o filme não é perfeito. Algumas situações acabam recebendo mais tempo do que realmente precisavam, com certos desenvolvimentos que se arrastam um pouco e prejudicam o ritmo em alguns momentos. Há trechos que poderiam ser mais diretos, sem que isso comprometesse a história ou o desenvolvimento dos personagens. Não é nada que diminua tanto a experiência, mas são momentos em que o filme parece demorar um pouco mais do que deveria para chegar aonde quer.


Alguns acontecimentos envolvendo os pais da protagonista e a própria vilã também parecem surgir do mais absoluto nada. O filme praticamente não dá pistas anteriores de que existia essa relação, então, quando tudo vem à tona, fica a sensação de que certas revelações foram colocadas ali apenas para acrescentar mais drama à história. Não é necessariamente uma ideia ruim, mas faltou construir melhor essa ligação ao longo da narrativa, para que esses acontecimentos tivessem mais impacto e não parecessem tão repentinos.


Outro ponto um tanto quanto negativo está na resolução final da obra, quando a protagonista acaba utilizando um poder cujas regras e limitações não foram muito bem estabelecidas ao longo da história para simplesmente “salvar o dia”. A sensação é de que o filme encontra uma solução conveniente demais para o conflito que construiu, sem ter preparado o espectador para aquela possibilidade. Longe de comprometer tudo o que veio antes, mas acaba tirando um pouco do peso da conclusão, justamente por parecer uma saída relativamente fácil para uma situação que até então parecia muito mais complicada.


Ainda assim, as qualidades de do filme superam facilmente esses problemas e vale muito a pena gastar essas 2h10min se aventurando por esse mundo tão bonito e cheio de personalidade, ainda mais com um elenco de vozes de peso, que conta com nomes como Mahershala Ali e Carey Mulligan. É mais uma daquelas animações que mostram o quanto o estúdio LAIKA sabe criar mundos fascinantes e que, mesmo com alguns tropeços na história, consegue entregar uma aventura que vale cada minuto.


Difícil não se encantar com o cuidado colocado em cada detalhe, com a beleza daquele universo e com a forma como a aventura vai ganhando vida diante dos nossos olhos. Talvez a história não consiga acompanhar o mesmo nível de excelência de sua parte técnica, mas isso não impede que o filme seja uma experiência extremamente prazerosa. É uma obra que merece ser vista, principalmente por tudo aquilo que faz tão bem, e que reforça o quanto ainda há espaço para animações tão criativas e visualmente impressionantes.


Deem uma chance a O Bosque Selvagem. É uma daquelas obras que merecem ser assistidas com calma, aproveitando cada detalhe desse universo tão particular. E, mais do que isso, é um filme que rende boas conversas, seja sobre suas qualidades, suas escolhas narrativas ou até mesmo aquilo que poderia ter sido melhor.



O Bosque Selvagem estreia nos cinemas brasileiros no dia 29/10/2026.


 

Resenhas
https://www.cinehorror.com.br/resenhas/o-bosque-selvagem?id=2018
| 29 | 29/10/2026
Existe um bosque escondido logo depois da cidade, um lugar que não aparece em nenhum mapa e de onde dizem que ninguém volta. É para lá que o irmão de Prue é enviado por uma feiticeira que precisa dele para seus planos sombrios. Sem pensar duas vezes, Prue e seu amigo Curtis partem para o Bosque Selvagem para salvá-lo. Lá dentro, os dois encontram um mundo mágico, cheio de perigos, criaturas encantadas e segredos antigos.
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