O REFÚGIO (Homestead) | EUA | 2024
Direção: Ben Smallbone
Roteiro: Jason Ross
Elenco: Neal McDonough, Dawn Olivieri, Bailey Chase, Currie Graham, Jesse Hutch, Susan Misner, Olivia Sanabia, Kearran Giovanni
Distribuição: Heaven Content
Duração: 112 minutos
Sinopse: Uma bomba nuclear é detonada em Los Angeles, e a nação mergulha em um caos sem precedentes. O ex-soldado das Forças Especiais Jeff Eriksson e sua família fogem para “O Refúgio”, uma fortaleza isolada nas montanhas, construída por um sobrevivencialista. À medida que ameaças violentas e condições apocalípticas se aproximam de suas fronteiras, os moradores do Refúgio se perguntam: por quanto tempo um grupo de pessoas pode resistir não apenas aos perigos da natureza humana, mas também ao derramamento de sangue à sua porta?
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Era uma noite comum. Passeando pelo shopping sem grandes pretensões, decidi conferir o que estava em cartaz. Então me deparo com O Refúgio, um filme que prometia um cenário pós-apocalíptico realista, veteranos de guerra lutando por sobrevivência e dilemas morais profundos. Como um bom entusiasta do gênero, me empolguei. EITA, QUE AGORA VAI!
Pensei que poderia ser uma mistura de Mad Max, Constantine e, quem sabe, um pouco de Rambo. Era só minha mente projetando expectativas delirantes, claro. Mas que tristeza quando percebi que estava apenas me iludindo.
Os primeiros minutos até enganaram bem. O filme tem uma premissa que, se bem trabalhada, poderia render algo decente: uma sociedade em colapso, uma família buscando abrigo nas montanhas em uma fortificação militar, mercenários—perdão, milicianos—digo, soldados "honestos" (porém bem pagos), defendendo um bilionário daqueles que têm uma fortuna capaz de comprar até a última garrafa de água do planeta. Tudo parecia promissor, mas rapidamente descobri que havia cometido um erro colossal.
O roteiro é um desastre, para não dizer uma tragédia (mais adiante esclareço), os diálogos são artificiais e insossos, e a atuação se arrasta de forma lamentável. A experiência foi semelhante a uma autópsia: sabemos que o corpo está morto, mas ele ocasionalmente tem espasmos, dando a falsa impressão de vida. Alguns raros momentos esboçam profundidade temática, mas se dissipam rapidamente como uma chama fraca prestes a apagar.
FEMA: A teoria conspiratória que o filme esconde (e o ataque russo que surge do nada)
Aqui está o maior desperdício narrativo de O Refúgio: um filme que aborda o colapso social e menciona a FEMA (Federal Emergency Management Agency) como se fosse um mero detalhe, quando poderia ser o grande fio condutor da paranoia conspiratória. Afinal, nos cantos mais obscuros da internet, essa agência é frequentemente acusada de ser um braço oculto da Nova Ordem Mundial, preparando campos de concentração para dissidentes e armazenando caixões de três lugares, supostamente prontos para extermínios em massa.
E não para por aí! Se a trama quisesse mesmo mergulhar no caos e na desinformação, poderia ter explorado toda a teoria de pandemias dizimatórias, estrategicamente criadas em laboratórios secretos, por governos conspiracionistas, para reconfigurar a ordem global e estabelecer uma hegemonia absoluta. Esse conceito, tão presente em teorias da conspiração, teria sido combustível perfeito para um thriller recheado de suspense e revelações bombásticas.
Mas, como se o roteiro estivesse desesperado por mais uma reviravolta aleatória, do nada, surge a grande revelação: a Rússia supostamente teria realizado um ataque cibernético massivo, derrubando a segurança digital e o sistema elétrico dos Estados Unidos.
Pronto! Agora sim temos todos os ingredientes de um delírio cinematográfico mal aproveitado. Imagine o potencial: uma sabotagem internacional, governos em pânico, grupos sobrevivencialistas tentando se proteger, e, claro, o papel da FEMA nessa crise, estaria ela apenas ajudando os sobreviventes ou executando o plano definitivo da Nova Ordem Mundial?
Infelizmente, nada disso acontece. O filme toca no assunto e foge dele imediatamente, como quem não tem coragem de se comprometer com nada que possa ser minimamente interessante.
Se ao menos tivessem explorado essa paranoia com inteligência, poderíamos ter visto personagens descobrindo documentos secretos, desvendando um plano sinistro para a população, ou até mesmo se deparando com instalações clandestinas da FEMA. Isso tornaria O Refúgio no mínimo envolvente. Mas não. O filme simplesmente menciona a FEMA e segue adiante, sem ousadia alguma. Um desperdício monumental de um tema que poderia ter sido um espetáculo de caos cinematográfico.
Um panfleto capitalista fracassado
Se há uma mensagem que O Refúgio quer enfiar goela abaixo, é a de que a salvação da humanidade está nas mãos dos bilionários. Isso mesmo, aqueles que constroem bunkers de luxo, fortificações impenetráveis, contratam exércitos particulares e se tornam os últimos bastiões da civilização.
O protagonista, Ian Ross, interpretado por Neal McDonough com a mesma energia de alguém que está ali apenas para cumprir contrato, encarna o típico empresário sobrevivencialista que, em meio ao caos, nos "ensina" uma lição valiosa: se você não é um bilionário e não tem recursos ilimitados, só resta assistir ao mundo pegando fogo enquanto os ricaços brindam com vinho de pêssego nos seus abrigos e fortificações.
O que o filme quer vender é simples e eficiente: a salvação do mundo está nas mãos dos ricaços, dinheiro compra tudo, até mesmo a própria sobrevivência ou na pior das hipóteses, a redenção. Quem não nasceu em um berço de ouro? Azar…
PQP!… O grande plot twist: virou culto!
Por volta dos 70 minutos, O Refúgio dá uma guinada tão absurda que parecia que eu seria arremessado da cadeira do cinema, como um carro derrapando no asfalto molhado. O que começou como um thriller pós-apocalíptico se converte, sem aviso prévio, em um sermão cinematográfico. Frases motivacionais jogadas ao vento, discursos religiosos brotando do nada e uma conclusão que mais parece um culto evangélico daqueles que fazem você reconsiderar todas as suas escolhas de vida e se perguntar: que diabos eu vim fazer aqui?
E então, chega o momento glorioso da Madame “flu-flu”, também conhecida como esposa do protagonista, Ian Ross. Sim, ELA. A própria Tia do Zap encarnada na trama, aquele ser iluminado que acredita que a Terra é plana, que a vacina transforma as pessoas em jacarés, e que o Nazismo era de esquerda.
E lá está ela, a dondoca que, do nada, resolve se reinventar como a grande redentora da humanidade. Num surto cinematográfico inexplicável, ela se enche de propósito, como se tivesse acabado de ser tocada por um chamado divino. Absorvendo cada palavra como se fosse a verdade suprema, ela toma para si a missão de salvar o mundo, carregando uma expressão de revelação transcendental.
Enquanto isso, eu, preso no meio da sessão, apenas lamento profundamente a oportunidade desperdiçada, tentando entender o que diabos aconteceu com o que deveria ser um filme de sobrevivência.
Por fim...
O Refúgio tentou ser um thriller de sobrevivência. O que entregou foi uma pregação disfarçada, um panfleto capitalista grotesco, uma ode aos bilionários, e, no final das contas, uma monumental decepção narrativa.
Sinceramente, esse filme parece até ideia de alguém do Trump, já que o Elon Musk, apesar de se declarar ateu, acredita que vai para o céu, ou pelo menos pode comprá-lo.
E assim, entre um roteiro fraco, diálogos artificiais e um potencial desperdiçado, o filme se afoga na própria mediocridade.
Se você busca um thriller pós-apocalíptico com ação e tensão realista, fuja (parta a milhão, na moral). Se, por outro lado, quiser assistir a algo que se transforma, de súbito, em uma pregação religiosa e uma ode aos bilionários, vá em frente.
Mas ei, pera lá… quem sabe na sequência eles não expandem a história e jogam uns caixões da FEMA no meio, hein?
O Refúgio estreia nos cinemas brasileiros no dia 29/05/2025.

O roteiro da HQ é inspirado no argumento do filme A ÚLTIMA COVA, de Armando Fonseca e Raphael Borghi.