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O ÚLTIMO AZUL

Por: Hyndra

O ÚLTIMO AZUL | Brasil / México / Países Baixos / Chile | 2025
Direção: Gabriel Mascaro
Roteiro: Gabriel Mascaro e Tibério Azul
Elenco: Denise Weinberg, Rodrigo Santoro, Miriam Socarrás, Adanilo
Distribuição: Vitrine Filmes
Duração: 86 minutos
Sinopse: Para maximizar a produtividade econômica, o governo ordena que os idosos se mudem para colônias habitacionais distantes. Tereza, 77 anos, se recusa - em vez disso, embarca em uma jornada pela Amazônia que mudará seu destino para sempre.


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É sempre mais difícil ancorar um navio no espaço


Como o cinema se enraiza no poder de escolha e garante o direito ao futuro? Como encontrar brechas de desejo e delírio? No mundo da ética capitalista que oprime e segrega corpos, se tornar velho é ser improdutivo e, portanto, mercadologicamente inviável. Os corpos que não correspondem aos níveis exigidos pelo lucro tornam-se abjetos. Nos processos de coação, a ordem é negar as fontes para o prazer e para a autonomia. O capitalismo abate o direito ao sonho com as suas jornadas exaustivas de se desmaiar em frigoríficos.


Uma vida dedicada ao trabalho, aos filhos, esquecida de si. Quem se lembra de sonhar quando é preciso passar a navalha na carne e enfrentar jacarés em verões no aquário? Sem nenhuma palavra, apenas a trilha sonora que me transporta entre os tempos, essas foram as minhas primeiras reflexões ao assistir O Último Azul (2025), de Gabriel Mascaro, protagonizado por Denise Weinberg no papel de Tereza, uma mulher de 77 anos, mãe e avó, que trabalha em uma fábrica de extração de jacarés em uma vila amazônica. Um dia, entre condecorações e discursos de ordem e progresso, o governo baixa um decreto: a partir dos 75 anos, todos devem ir para uma colônia. Afinal, “o futuro é para todos”. E cuidar dos mais velhos e das crianças, que são os sustentáculos da vida, te impede de produzir e trabalhar mais, na lógica do capital. Para as mulheres, cuidar das crianças ainda é permissível, com várias culpas e ressentimentos, pois esses corpos serão domesticados para o trabalho e manterão a ordem desnatural do sistema.


Mas que futuro é esse que segrega velhos e retira o direito à autonomia, à liberdade e ao prazer? Tereza não quer ir para a colônia, ela percebe que quer voar, andar de avião. Entre os afazeres da vida, o tempo de sonhar lhe foi negado. Mas sempre é hora para a recusa e nunca é tarde para se insubordinar contra o que é imposto. O crime sagrado de ser divergente, é a escolha de Tereza. Entre as ruínas do parque e do abandono, nos encontros com Cadu (Rodrigo Santoro) e Roberta (Miriam Socarrás), é a vida que transcorre, imprevisível e contínua, tal como os fluxos das águas. É na singeleza de escolher, de não ser liquidada, de se deixar sonhar e delirar, que reside a beleza de O Último Azul.


A baba do caracol, ativo extraído para cremes anti-idade em cosméticos, neste filme se transmuta em um psicoativo que expande os níveis de consciência para o encanto, para imaginar outras vidas possíveis e ficar a ver navios, ou melhor, encarar peixes. O caracol da baba azul é quem escolhe você. Basta pingar uma gota em seus olhos e a visão do mundo passa a ser diferente. Tereza recusa a imposição do regime, da colônia, do progresso, de separar os mais novos dos mais velhos, em suma o “futuro para todos” que não é autônomo e nem libertário não a interessa. Quais futuros queremos e como criá-los?


No fim, basta olhar para o horizonte e voar em cima das águas, de preferência acompanhada de um bom disco de Maria Bethânia. Pilotar um barco ou um avião? Tanto faz. Uma vez aprendido o ofício, que também envolve o árduo trabalho de escolher um futuro para si, ou melhor, ancorar um navio no espaço, é só se deixar levar pelos fluxos das águas ou pela rosa dos ventos. Afinal, como diz Ana Cristina César, poeta que dá título a esse texto, são sempre as mulheres que desistem de afundar navios, porque o azul é tão azul que não espanta. 



O Último Azul estreia nos cinemas brasileiros no dia 28/08/2025.

Resenhas
https://www.cinehorror.com.br/resenhas/o-ultimo-azul?id=1593
| 540 | 26/08/2025
Para maximizar a produtividade econômica, o governo ordena que os idosos se mudem para colônias habitacionais distantes. Tereza, 77 anos, se recusa - em vez disso, embarca em uma jornada pela Amazônia que mudará seu destino para sempre.
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