OBSESSÃO (Obsession) | EUA | 2026
Direção: Curry Barker
Roteiro: Curry Barker
Elenco: Michael Johnston, Inde Navarrette, Cooper Tomlinson, Megan Lawless, Andy Richter, Haley Fitzgerald
Distribuição: Universal Pictures Brasil
Duração: 108 minutos
Sinopse: Um jovem chamado Bear é um romântico incorrigível que trabalha numa loja de música e discos. Um dia, ele decide comprar um brinquedo sobrenatural conhecido como "One Wish Willow". O objeto concede um desejo ao seu portador e Bear pede para ganhar o coração de sua crush e amiga de infância Nikki. O rapaz recebe exatamente o que pediu, porém, rapidamente percebe que o preço que se paga por certos desejos é mais alto e sombrio do que se esperava.
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Nos últimos anos, o cinema de terror parece ter encontrado um caminho cada vez mais interessante ao apostar em narrativas mais contidas e fechadas em si mesmas. Em vez de recorrer ao excesso de reviravoltas ou inserir novos elementos a todo instante, muitas obras recentes têm preferido explorar com profundidade os conceitos apresentados desde o início, construindo tensão e mistério a partir da própria atmosfera e das regras estabelecidas pela trama.
É justamente nessa linha que Obsessão se encaixa, ou seja, um filme que entende os limites da própria proposta e trabalha seus elementos de forma gradual, mantendo o espectador intrigado sem precisar transformar sua narrativa em algo maior do que realmente precisa ser.
No longa, acompanhamos Bear (Michael Johnston), um jovem romântico que trabalha em uma loja de discos e nutre sentimentos pela amiga de infância Nikki (Inde Navarrette). Na tentativa de conquistar o coração da garota, ele recorre ao “One Wish Willow”, um misterioso brinquedo sobrenatural capaz de realizar desejos. O que parecia ser a solução perfeita, porém, rapidamente se transforma em um pesadelo, quando Bear descobre que todo desejo tem um preço tão sombrio quanto imprevisível.
O grande diferencial da obra está justamente na maneira como o filme reinventa uma ideia clássica do imaginário popular: a da “poção do amor”. Aqui, o conceito surge atualizado através de um objeto sobrenatural que materializa desejos, transformando uma fantasia romântica aparentemente inocente em algo profundamente perturbador.
Mais do que apenas um artifício de terror, o longa utiliza essa premissa para discutir a obsessão escondida por trás de certos desejos e a forma como aquilo que idealizamos pode rapidamente fugir do nosso controle.
Existe um conflito interessante na forma como a narrativa trabalha essa ideia. O desejo de Bear nasce de uma carência afetiva genuína, mas rapidamente revela um lado egoísta e impulsivo, já que ele tenta forçar um sentimento que deveria existir de maneira natural.
O terror do filme surge justamente dessa distorção amorosa, quando o amor deixa de ser afeto e passa a funcionar como dependência sádica e perturbadora. Assim, Obsessão utiliza seu elemento sobrenatural não apenas como ferramenta de horror, mas como uma reflexão sobre como o excesso dos nossos desejos pode nos trair e acabar destruindo todos ao nosso redor.
Obsessão também acerta ao construir algumas cenas bastante memoráveis ao longo da trama. Entre elas, se destaca um momento envolvendo Nikki, em que o filme sugere, de maneira inquietante, que ainda existe algo tentando resistir por trás da obsessão que a domina. É uma sequência simples, mas extremamente eficaz em ampliar o desconforto psicológico da história.
E não pode ficar de fora a cena marcante da conversa entre Bear e sua amiga Sarah. É nesse momento que o filme parece condensar sua essência, revelando de forma desconfortável e inquietante aquilo que existe de melhor (ou pior) em sua proposta.
Para além da trama, muitos pontos técnicos se destacam no longa. As atuações funcionam bem dentro da atmosfera construída pelo filme, especialmente por manterem o tom estranho e desconfortável que a história exige sem parecer exageradas, mas quando necessário, o exagero agrega para a construção dos personagens.
Os efeitos práticos são contidos, mas eficientes, utilizando o gore de maneira pontual e suficientemente impactante para causar incômodo sem transformar a violência no centro da experiência. Sem contar a trilha sonora, que merece atenção pela forma inteligente como contribui para o desconforto constante do filme. Alternando entre notas harmônicas e sons propositalmente “errados” ou dissonantes, a música cria uma sensação de instabilidade que acompanha o estado psicológico dos personagens e da própria narrativa. É um recurso simples, mas extremamente eficaz, que amplia a tensão das cenas e reforça a atmosfera perturbadora que é construída do início ao fim.
A direção também se destaca pela forma como conduz o ritmo da narrativa, apostando em cortes secos e mudanças rápidas entre as cenas para manter a sensação constante de tensão. Isso fortalece especialmente os jump scares, que aqui não surgem apenas como sustos gratuitos, mas como elementos integrados à construção psicológica e sobrenatural da trama, funcionando de maneira orgânica dentro da proposta do filme. Cabe ressaltar o - ainda pouco conhecido do grande público - Curry Barker que certamente deverá ganhar mais atenção após Obsessão.
Diretor, roteirista e ator, Barker vem se consolidando como uma nova voz promissora do terror contemporâneo, especialmente após o destaque conquistado com Milk & Serial e pelo trabalho no canal de esquetes That’s a Bad Idea. Com Obsessão, o cineasta demonstra segurança na condução do suspense e um entendimento muito claro da atmosfera que deseja construir, entregando uma obra que pode colocá-lo de vez no radar dos fãs do gênero de horror.
No fim, o longa é um daqueles filmes que entendem perfeitamente a própria proposta e conseguem transformar uma ideia simples em uma experiência genuinamente desconfortável, intrigante e memorável.
Com uma atmosfera eficiente, cenas marcantes e uma direção bastante segura, o longa emerge facilmente como o melhor filme de terror do ano até o momento, pelo menos na opinião deste que vos escreve. E, depois desse trabalho, fica impossível não criar expectativa pelos próximos projetos de Curry Barker, que demonstra aqui um enorme potencial dentro do gênero. Vale a pena o ingresso e a ida ao cinema para ficar de cara (ou sem ela) com tamanha experiência cinematográfica.
Obsessão estreia nos cinemas brasileiros no dia 14/05/2026.

O filme é co-escrito e produzido por Guillermo Del Toro.