SELVAGEM LITORAL (These Savage Shores)
Autores: Ram V (roteiro), Sumit Kumar (arte) e Vittorio Astone (cores)
Editora: QS Comics
Formato: Capa dura
Páginas: 208
Lançamento no Brasil: 7/11/2023
O colonialismo foi um dos momentos históricos que até hoje é possível perceber suas mazelas. Países que até hoje enfrentam guerras civis, economias estagnadas, conflitos étnicos e ditaduras apoiadas por governos externos. Cenários que evocam um verdadeiro terror. Mas, e se além dos crimes cometidos entre humanos, o colonialismo tivesse uma face mais monstruosa? E se ele tivesse algo que realmente separasse o humano da besta? E se mesmo que houvesse outras criaturas, será que elas seriam tão cruéis quanto os humanos? Esse tipo de indagação pode parecer batida, já que diversas obras misturam fatos históricos com seres sobrenaturais, mas, a dupla Ram V e Sumit Kumar conseguiram criar uma narrativa que recupera a ancestralidade e cultura de um povo que foi invadido, e reforça que muito antes do homem branco chegar, seres mais poderosos caminhavam pela terra.
Quando falamos de vampiros, é difícil não invocar uma figura europeia, Drácula, Elizabeth Báthory e Carmilla são figuras estabelecidas e altamente difundidas. Mas, diversas culturas milenares já possuíam uma criatura similar aos vampiros europeus. No caso de Selvagem Litoral, temos Bishan. Um ser ancestral que atua como guarda costas e conselheiro do jovem príncipe Vikram, que se encontra exilado após o cerco de um nobre rival que possui apoio da Inglaterra. Em sua primeira aparição, Bishan relata parte de sua história, uma lenda bela e melancólica sobre deuses, fratricídio e imortalidade. Bishan não é uma criatura isolada em um castelo ou atormentado por uma feição deformada, ele é tão presente na comunidade quanto qualquer um. Essa abordagem demonstra uma convivência entre divino e terreno que não é compreendida pelos personagens europeus da obra. Mas, estou me adiantando um pouco.
Selvagem Litoral abre com um exílio. Um lorde inglês é revelado como vampiro, perseguido e enviado da Inglaterra para a Índia. Nesta introdução, conseguimos ver como o governo britânico gera perturbações no novo território e força seu estilo de vida. O lorde exilado, Alain Pierrefont, é recebido pelo príncipe Vikram e se instala na mansão do jovem monarca. A partir daí, a narrativa se estende por diferentes conflitos, fera contra fera, humano contra humano e novo contra velho.
A escolha da história se passar majoritariamente na Índia, traz um ar fresco para as histórias de vampiros. Ram V traz uma cultura bela, colorida, forte e que o fantástico se mistura com a normalidade. O traço de Sumit Kumar traz a beleza do roteiro em detalhes, mas o uso da sombra e de cores escuras sempre lembra ao leitor que algo amedrontador se esconde na beleza. A identidade étnica de diferentes grupos expande o referencial visual do leitor, fazendo com que seja possível localizar de qual grupo os personagens são oriundos e ao mesmo tempo mostrar o quão grande é a nação que virá a ser chamada de Índia. As cenas de ação são grandes espetáculos violentos e intensos, elas se desenrolam com velocidade e impacto, focando tanto nos movimentos quanto nas expressões dos envolvidos.
A narrativa da obra possui grandes momentos, mas há também suas quedas. Em algumas ocasiões a obra me perdeu e depois me recapturou, principalmente no meio da narrativa. Queria que o conflito entre britânicos e povos originários fosse mais desenvolvido, algo que me pareceu bem mais interessante do que a presença do caçador de vampiros europeu por exemplo. Mas, a reta final da obra ganha um gás e traz consequências severas para as personagens.
O trabalho gráfico da QS Comics consegue chamar a atenção do leitor e dialogar com a trama da obra. A escolha do vermelho e dourado traz o contraste da beleza e da violência, do sangue e das riquezas. Quase como uma antecipação do colonialismo presente na obra. Outro destaque vai para o belo prefácio escrito por Kieron Gillen, que lembra ao leitor que muitas vezes as batalhas podem durar por séculos e que os monstros não são sempre os que possuem as presas mais longas.
Em suma, Selvagem Litoral é uma obra impactante e trágica. É uma narrativa que sangra para fora de seu casulo literário e se despeja para nossa realidade. Junto com Pecadores, mostra que o tema dos vampiros possui muita coisa nova para se trabalhar e que a realidade pode ser tão assustadora quanto a ficção.
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Uma leitura rápida e instigante, que nos prende do começo ao fim, deixando, inclusive como cereja do bolo, a história original e sua moral intrínseca.